Inquérito sobre Fátima –
Agosto de 1990

por David Boyce

Este artigo foi escrito pelo Sr. David Boyce, de Surrey, Inglaterra. É professor e tradutor para inglês da revista CRC (Contre-Réforme Catholique). Com grandes conhecimentos sobre as aparições de Fátima, examinou em pormenor a teoria das raras pessoas que ultimamente dizem que a Consagração da Rússia já foi feita como Nossa Senhora de Fátima pediu. Decidiu ir a Fátima no passado mês de Agosto para investigar o caso por conta própria. Regressou com algumas descobertas muito interessantes, que foram publicadas pela primeira vez na edição francesa de La Contre Réforme Catholique de Outubro-Novembro de 1990.

Pode-se dizer que este inquérito contribuiu muito para desvendar a conspiração dos que tentam fazer-nos acreditar na maior fraude sobre Fátima. Constrangidos pelo pouco tempo de que dispúnhamos, resolvemos, com a autorização da CRC, reconstruir o texto, usando vários tradutores, antes de estar disponível a tradução oficial. As notas de rodapé são também da CRC.

Tendo reflectido durante tanto tempo sobre a Mensagem de Fátima nas páginas da CRC, resolvi fazer a minha peregrinação no princípio de Agosto. Fátima impressiona-nos imediatamente pela devoção dos portugueses, que percorrem quilómetros a pé para chegar ao Santuário e, logo que chegam, dirigem-se de joelhos à Capelinha das Aparições, invocando a protecção de Nossa Senhora à medida que se deslocam, ainda de joelhos, à volta do local onde Nossa Senhora apareceu em 1917. Ao testemunhar este fervor, compreendi as palavras de Nossa Senhora: “Em Portugal se conservará sempre o dogma da Fé." Aquela fé não se verga a considerações humanas, tem os olhos fixos no Céu, e não deverá ser gravemente afectada pelas considerações puramente humanas da religião conciliar.

A minha visita ao Padre Fox

Na mesma altura, encontrava-se em Fátima o Padre Robert Fox com cerca de vinte dos seus jovens seguidores americanos.1 Ao pregar um sermão piedoso na Capelinha, o Padre Fox voltou a mencionar o que já tem vindo a dizer nos últimos tempos na sua publicação Fatima Family Messenger: que "a Rússia foi consagrada solenemente ao Imaculado Coração de Maria por Sua Santidade o Papa João Paulo II, em união com todos os Bispos do mundo, em 25 de Março de 1984; e daqui resultou o colapso do Comunismo na Europa de Leste e o início de uma era de paz." Foi isto em 7 de Agosto, quando poucos dos excursionistas estariam a par das notícias preocupantes do Médio Oriente no princípio do mês. Depois da Missa, aproximei-me do Padre Fox para lhe perguntar como é que sabia que a Irmã Lúcia tinha dito que a Consagração tinha sido feita como Nossa Senhora pedira. Nos artigos que escrevera, baseava-se muito nas declarações da sobrinha da Irmã Lúcia, Maria do Fetal; mas desta vez respondeu: "Recebi essa informação do Bispo de Leiria-Fátima e tenho documentação fornecida pela Superiora do Carmelo de Coimbra." Exprimi a minha surpresa, e disse que essa informação não era conhecida em Inglaterra, como certamente seria se a Consagração tivesse sido feita com a solenidade devida. Ouvindo isto, ficou tenso e replicou que eu devia andar a tirar sugestões do Padre Gruner. "Não, nunca li os trabalhos do Padre Gruner." Parecia irritado. E disse: "Tenho que ir atender os meus jovens." Estava para lhe fazer outra pergunta, sobre as palavras da sobrinha da Irmã Lúcia, Maria do Fetal, e também sobre que Delegado Apostólico teria supostamente visitado a Irmã Lúcia em 1984, o Arcebispo Portaluppi ou o Arcebispo Asti2 , como tinha referido no seu próprio relatório, mas ele virou-me as costas e afastou-se.

Não era um bom começo para a investigação que esperava levar a cabo em Fátima, mas pelo menos a declaração categórica do Padre Fox em como a Consagração tinha sido feita proporcionava-me uma abordagem útil quando me encontrasse com as outras pessoas que queria ver, na companhia da minha filha Lucy.

A minha visita ao Padre Kondor

Naquele mesmo dia, 7 de Agosto, fui recebido pelo Padre Kondor, Vice-Postulador para a causa da beatificação de Jacinta e Francisco, que concordou amavelmente em responder a perguntas. A conversa decorreu numa atmosfera cordial, pontuada por risos de vez em quando. Ele compreende inglês, mas prefere responder em húngaro através do seu secretário. Como o seu interesse principal é a causa da beatificação, comecei por lhe perguntar como estava a decorrer o processo. "O processo está completo," disse-me. "Estamos à espera de um milagre, e a beatificação realizar-se-á então, numa data significativa, talvez em 1992."

Eu sabia que o Padre Kondor é um dos raros membros do Clero que foram autorizados a falar com a Irmã Lúcia durante os últimos trinta anos. Ora, na edição mais recente das Memórias da Irmã Lúcia (Março de 1990), o Padre Kondor acrescentou a seguinte nota: "A Irmã Lúcia afirma que a Consagração feita por João Paulo II, em união com todos os Bispos, em 25 de Março de 1984, correspondia ao pedido de Nossa Senhora e foi aceite pelo Céu" (Memórias da Irmã Lúcia, página 114, nota 11). Além disso, a CRC informara que o Padre Kondor tinha feito declarações semelhantes a uma comunidade de Beneditinos americanos.3

Assim, referindo-me ao sermão do Padre Fox daquela manhã, perguntei quando é que a Irmã Lúcia tinha mencionado pela primeira vez que a Consagração tinha sido feita de acordo com o pedido do Céu. Não tive uma resposta directa,4 mas antes um longo relato de todos os acontecimentos que teriam levado ao 25 de Março de 1984, começando com a visita do Papa a Fátima em 1982, e terminando com os argumentos contra a validade da Consagração, que aparentemente não incluem o facto de vários Bispos de todo o mundo se terem recusado a unir-se ao Papa naquele dia. A objecção principal ao acto de 25 de Março de 1984 é que não era, de forma alguma, uma Consagração da Rússia. Ele tentou eliminar esta objecção, dizendo que "no momento em que João Paulo II devia pronunciar a palavra 'Rússia', os altifalantes foram desligados e o Papa murmurou de forma inaudível".5


Nota do Editor do Crusader:

Os factos publicados apontam para o contrário. Depois de consagrar o mundo, o Papa João Paulo II reconheceu publicamente em 25 de Março de 1984, por duas vezes, que Nossa Senhora de Fátima estava ainda a esperar a Consagração de certos povos. Como Nossa Senhora de Fátima só pediu a Consagração da Rússia, estes comentários do Papa, ambos pronunciados perante a imagem de Nossa Senhora de Fátima, um de manhã e o outro de tarde, e ambos publicados no dia seguinte pela imprensa católica oficial, demonstra claramente que o próprio Papa sabe que não cumpriu o pedido solene de Nossa Senhora de Fátima da Consagração da Rússia. The Fatima Crusader publicou várias vezes estas palavras do Papa, reproduzindo fotograficamente L'Osservatore Romano de 26 de Março de 1984. (peça-nos uma cópia) Estes comentários do Padre Kondor revelam que a conspiração para silenciar Nossa Senhora de Fátima chega, de facto, ao íntimo de certos círculos “oficiais” de Fátima.

Nesta altura, apresentei-lhe fotocópias de cartas alegadamente escritas pela Irmã Lúcia, em que se lê que o acto de 25 de Março de 1984 correspondia ao pedido de Nossa Senhora. Os leitores recordar-se-ão de que estas cartas foram publicadas e criticadas pela CRC no Inverno passado. A primeira é dirigida a Maria de Belém e datada de 29 de Agosto de 1989; a segunda a Walter M. Noelker, com data de 8 de Novembro de 1989; e a terceira ao Padre Paul Kramer, datada de 22 de Novembro de 1989. O Padre Kondor respondeu imediatamente, sem eu lhe ter perguntado, tal como fizeram as outras pessoas que visitei, que eram autênticas. Sim, a Irmã Lúcia usa, de facto, um processador de texto6 e pode escrever a quem quiser. Contudo, não justificou os erros contidos nessas cartas, como, por exemplo, a menção de uma Consagração do mundo feita por Paulo VI em 1967, que é uma pura invenção. "O Carmelo de Coimbra," acrescentou, "envia-me certas cartas endereçadas à Irmã Lúcia, especialmente a correspondência relativa às causas da beatificação de Francisco e Jacinta, a que eu próprio respondo." E estas cartas são passadas ao Padre Kondor para ele responder e assinar com a sua própria assinatura. Fiz ao Padre Kondor a seguinte pergunta: "A quem devemos pedir autorização para falar com a Irmã Lúcia?" Ele respondeu: "Só se pode pedir ao Cardeal Ratzinger, porque nem o Bispo de Fátima nem o Bispo de Coimbra podem dá-la."7 "Mas a Irmã Lúcia tem liberdade para escrever. Pode escrever-lhe." Fiquei admirado ao saber que não se pode falar à Irmã Lúcia, mas que ela, por seu lado, pode escrever livremente.

Para nos convencer de que o acto de 1984 tinha satisfeito o pedido do Céu, o Padre Kondor mandou gravar um vídeo em que aparece a ler às Carmelitas de Coimbra o texto da Consagração do mundo.

Mostrei ao Padre Kondor uma passagem de um artigo do Padre António Maria Martins, intitulado "Fátima, Mensagem de Fé, Esperança e Amor". Esta é a referida passagem:

"Tenho o prazer de comunicar o que me foi dito por um amigo que visitou por várias vezes a Irmã Lúcia no Carmelo de Coimbra: Um dia, disse-me ele, perguntei-lhe: Irmã Lúcia, diz-se que os pastorinhos viram o inferno. É verdade?' A sua face iluminou-se e transformou-se de uma maneira que, para mim, foi muito convincente."

"Este amigo que visitou muitas vezes a Irmã Lúcia”, perguntei eu, “é o Senhor Padre?" Ele riu-se e depois explicou: "O Padre Martins não diz tal. É muito discreto ... ao contrário do Padre Fuentes, que foi repreendido pelas suas indiscrições."8 O Padre Kondor insistiu que compete à Igreja julgar as mensagens do Céu, e não à própria vidente.

No fim da entrevista, folheou perante mim o dossier do processo de beatificação de Francisco e Jacinta Marto, cujo original se conserva em Roma. O Padre Kondor disse-me: "A obra definitiva do Padre Alonso sobre Fátima não pode ser publicada, porque ele compilou-a antes do processo estar completo. Faltam na obra do Padre Alonso certos documentos que se encontram neste dossier."9

Sem ser exacto, o Padre Kondor deu a impressão de que era a vontade de Roma que considerássemos a Consagração como estando feita e desistíssemos de mais perguntas.


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O Cardeal Ratzinger foi identificado pelo Padre Kondor como sendo a única pessoa com poderes para autorizar que alguém falasse à Irmã Lúcia.

As Carmelitas em Coimbra

Dois dias mais tarde, tive a oportunidade de visitar o Convento das Carmelitas de Coimbra, a cuja comunidade pertence a Irmã Lúcia. A Superiora estava muito ocupada para receber visitas, mas eu e a minha filha fomos convidados a entrar na capela para rezarmos. Passada cerca de meia hora, uma irmã externa aproximou-se e perguntou o que desejávamos. Ela falava um francês muito bom, e eu comecei por lhe contar como o Padre Fox tinha há dias declarado em Fátima que a Consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria tinha sido feita, apesar do facto de este acto, hoje tão importante para o mundo, ter sido desconhecido pelo mundo católico em geral. Afinal, as encíclicas do Papa chegam a todo o mundo logo que são promulgadas; porque não se passou o mesmo com esta declaração tão importante? A Irmã respondeu que a imagem de Fátima tinha sido levada para Roma para a cerimónia, e que, de qualquer maneira, uma Consagração do mundo ao Imaculado Coração abrangia a Rússia.

Quando lhe mostrei as três fotocópias das cartas, alegadamente escritas pela Irmã Lúcia e referindo-se ao acto de Março de 1984, a Irmã deu-lhes uma olhadela e declarou que eram autênticas. "Sim, temos um processador de texto," disse-me. Mas apesar disso, as cartas referem-se a um acto de Consagração supostamente feito em 1967, mas que nunca existiu. E porque é que se afirma, na carta a Noelker, que a Consagração pedida por Nossa Senhora não podia ser feita durante um Concílio? A Irmã reconheceu ser incapaz de responder. "Quando é que a Irmã Lúcia disse, pela primeira vez, que a Consagração de 1984 satisfizera o pedido do Céu?" Mais uma vez, não soube responder. Este assunto tem elementos realmente perturbadores e suspeitos! E a boa Carmelita, que já tinha consciência, bem contra a sua vontade, de todos estes mistérios quando lhe perguntei: "Porque é que esperaram cinco anos antes de anunciar que a Consagração da Rússia já tinha sido feita?", concluiu a nossa entrevista fazendo-me esta confissão: "Eu penso como o Senhor, mas a Igreja é assim. Devemos rezar." Para terminar, perguntei-lhe se a Madre Superiora me daria as mesmas respostas às minhas perguntas. Ela respondeu: "Sim."

O Padre Cristino – arquivista de Fátima

No dia seguinte, consegui encontrar-me com o Padre Cristino no seu gabinete em Fátima. É um sacerdote diocesano, com cerca de 50 anos, que é actualmente responsável pelo arquivo de Fátima. Como fala bastante bem francês, conversámos nessa língua. "Visto que trabalhou com o Padre Alonso, sabe se o trabalho que ele fez sobre a história de Fátima será publicado num futuro próximo?" Ele respondeu: "A obra completa nunca será publicada. Está a fazer-se uma síntese dela; uma comissão está encarregada disso."

Referi-me então ao sermão do Padre Fox de 7 de Agosto, ao que o Padre Cristino declarou que ele, pessoalmente, teria mais prudência e não faria uma tal declaração em público. As notícias do Médio Oriente já estavam a fazer impacto em 10 de Agosto, e o Padre Cristino tinha plena consciência de que as coisas podiam correr mal para a era de paz prevista ... Insistiu também em como as revelações de Fátima eram essencialmente particulares, mas admitiu que eram de importância capital para o Século XX.

Mostrei-lhe as fotocópias das três cartas. Ele conhecia-as e disse que eram autênticas, embora acrescentasse que o Abbé de Nantes e o Padre Gruner tinham razões para duvidar da sua autenticidade. Como sabia que ele era uma das autoridades mais bem informadas sobre Fátima, perguntei-lhe: "Porque é que estas cartas mencionam uma Consagração do mundo que o Papa Paulo VI teria feito durante a sua peregrinação a Fátima em 13 de Maio de 1967? Isto não é uma pura invenção? E porque é que se afirma, na carta a Noelker, que a Consagração da Rússia pedida por Nossa Senhora não podia ser feita no decurso de um Concílio?..." O Padre Cristino não soube responder; limitou-se a encolher os ombros.

Na introdução à sua V Memória, publicada em Fevereiro de 1989, a Irmã Lúcia dirige a Monsenhor Luciano Guerra, Reitor do Santuário de Fátima, as seguintes palavras: "As respostas ao seu questionário terão de esperar até mais tarde. Mas, mesmo agora, devo avisá-lo de que há certas perguntas a que não posso responder, porque se referem às aparições, sobre as quais estou impedida de falar sem autorização da Santa Sé. A menos que peça e obtenha uma dispensa desta restrição, terei de deixar estar perguntas em branco." (Memórias da Irmã Lúcia, Março de 1990, p. 192). Daí a minha pergunta: Entre Fevereiro e Agosto de 1989 — ou antes, no fim de Agosto de 1989, quando a vidente supostamente escreveu a carta a Maria de Belém — a Irmã Lúcia recebeu autorização da Santa Sé para se corresponder sobre assuntos relativos às aparições e à Mensagem de Fátima?

O Padre Cristino quis mudar de assunto e falar sobre a Inglaterra: a recente nomeação para Cantuária, o processo da canonização do Cardeal Newman. A conversa foi muito cordial e amigável.

Terminada a entrevista, levantámo-nos e, ao sair do seu gabinete, ele segurou-me o braço e admitiu que partilhava dos nossos sentimentos. "Compreendo as suas objecções," disse-me ele. "Isto perturba-me ... É estranho que tenham deixado passar cinco anos antes de dizerem que a Consagração estava feita."

Maria do Fetal

Queria ver a sobrinha da Irmã Lúcia, Maria do Fetal, enquanto eu estava em Fátima, mas em vão.10 Fui várias vezes ao seu apartamento, tanto de dia como ao fim da tarde, mas ela nunca atendeu o intercomunicador. Meti um recado por baixo da porta, mas sem resultado. Porém, ela estava em Fátima, porque o meu hospedeiro tinha-a visto no banco. Ele teve a amabilidade de telefonar a um dos seus amigos, e foi-lhe dito que Maria do Fetal não faria mais declarações. Até tinha mandado desligar o telefone. Estará possivelmente chocada por ter visto a sua fotografia na publicação do Padre Gruner, ilustrando os artigos intitulados "As fabricações do Padre Fox" e "As invenções de Maria do Fetal".11

NOTAS:
  1. Trata-se de uma peregrinação de jovens americanos organizada pelo Padre Fox. Este sacerdote americano, cuja publicação Fatima Family Messenger ainda não alcançou uma circulação de 15.000 exemplares (cf. Voz da Fátima, 13 de Agosto de 1990, Nº 815), teria continuado a ser um grande desconhecido nos Estados Unidos, se não tivesse sido encarregado de obstruir a obra do Padre Gruner, que "importuna o Santo Padre" com as suas petições para a Consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria.


  2. Recorde-se que, ao contrário do que o Padre Fox diz, nem o Núncio Apostólico, Arcebispo Portaluppi, que faleceu em 31 de Março de 1984, nem o seu sucessor, o Arcebispo Salvatore Asti, falou com a Irmã Lúcia depois do acto oficial de dedicação do mundo feito em 25 de Março de 1984. (cf. CRC 228 Abril de 1990, ed. em inglês) Sabemos que fracassaram todas as diligências feitas por um sacerdote francês, devoto de Fátima, para que o Núncio interrogasse a Irmã Lúcia. Em Outubro de 1985, o mesmo sacerdote francês sugeriu ao Arcebispo Salvatore Asti que visitasse a Irmã Lúcia no Carmelo de Coimbra para lhe fazer perguntas sobre a vontade do Céu. A resposta que recebeu foi a seguinte: a Santa Igreja tem muito tempo à sua frente. Tem a promessa da vida eterna. Sejamos pacientes. Tudo chegará no seu devido tempo. (Correspondência pessoal, datada de 4 de Novembro de 1985). Mais uma vez, o mesmo sacerdote esteve em Roma na segunda metade de Novembro de 1985, altura em que pôde avistar-se com o Cardeal Oddi. Eis o que nos contou: "Quando disse ao Cardeal Oddi que o Núncio em Lisboa devia regressar (como aconteceu em 1983) para ver a Irmã Lúcia, ele respondeu: 'Faça o que fizer, não mencione isso no Vaticano. Eles telefonariam imediatamente ao Núncio para o impedir de se avistar com Lúcia' [...]. O telefonema para o Núncio [para o mandar entrevistar a vidente] depende do Papa e do Secretário de Estado, que não estão, de modo nenhum, preparados para dar essa ordem." (Correspondência pessoal, datada de 22 de Novembro de 1985).


  3. Que nós saibamos, o Padre Kondor nunca disse, antes de Janeiro de 1990, que a Irmã Lúcia considerava a 'Consagração de 1984 como sendo suficiente para cumprir o pedido de Nossa Senhora da Consagração da Rússia'.


  4. O embaraço do Padre Kondor e a sua incapacidade para responder a esta pergunta corroboram a nossa convicção de que a Irmã Maria Lúcia do Imaculado Coração nunca lhe tinha dito que a Consagração da Rússia tinha sido feita de acordo com o desejo de Nossa Senhora.


  5. O Padre Kondor ficou reduzido a dar uma explicação desesperada. Sublinhamos que todos os que estavam de qualquer modo informados sobre a Mensagem de Fátima e que conheciam o texto oficial da dedicação do mundo, (mesmo antes de 25 de Março de 1984), do qual se omitira a palavra "Rússia", sabiam perfeitamente que nem o Papa nem os Bispos iriam cumprir o pedido de Nossa Senhora naquele dia.

    O Bispo D. Alberto Cosme do Amaral contava-se entre os informados que, em Fevereiro de 1984, ainda não tinham recebido de Roma a ordem de que a Consagração de Março de 1984 devia ser apresentada como estando de acordo com a vontade do Céu, porque "o Papa estava a fazer tudo o que lhe era possível." Em 14 de Fevereiro de 1984, D. Alberto Cosme do Amaral confessou a Frère Michel, numa conversa que durou vinte minutos: "O Papa irá fazer mais uma Consagração em 25 de Março. Será mais um paso em frente ..." Frère Michel reparou que o Bispo de Leiria-Fátima não disse nada sobre o Papa ir finalmente atender o pedido de Nossa Senhora.

    Além disso, a Irmã Lúcia, que em 22 de Março de 1984 já tinha lido a carta de João Paulo II aos Bispos de todo o mundo e o texto oficial do acto de dedicação, disse à sua velha amiga, D. Maria Eugénia Pestana de Vasconcelos Costa: "Este acto de Consagração não pode ser decisivo, porque a Rússia não aparece nele como o único objecto da Consagração." (cf. CRC 226. Fevereiro de 1990, ed. em inglês).

    Mais: o nosso sacerdote francês regressou a Portugal no início de Março de 1984 para convencer os seus amigos, o Dr. Lacerda e o Padre Messias Dias Coelho, a pedir ao Núncio Apostólico que visitasse a Irmã Lúcia logo a seguir a 25 de Março, de modo a que a mensageira do Céu pudesse explicar ao representante da Santa Sé (como se tinha feito em 19 de Março de 1983, no parlatório do Carmelo, sobre o acto de dedicação do mundo feito em 13 de Maio de 1982) porque é que o pedido do Céu tinha ficado por satisfazer. Infelizmente, não houve tempo para este excelente plano ser posto em acção, porque o Arcebispo Portaluppi, Núncio Apostólico e grande devoto de Nossa Senhora de Fátima, adoeceu ao fim da tarde de 25 de Março e faleceu seis dias depois.


  6. Este processador de texto, ou computador, foi oferecido à comunidade carmelita pelo próprio Padre Kondor, que assim o afirmou ao nosso Irmão Augustin du Saint-Sauveur em 22 de Fevereiro de 1990. O Padre Fox não deixou de informar os seus leitores que o Carmelo de Coimbra possuía um computador (cf. Fatima Family Messenger, Janeiro-Março de 1990, p.10).


  7. Em 19 de Fevereiro de 1990, Monsenhor A. Duarte de Almeida, capelão do Carmelo de Coimbra, deu a mesma resposta às nossas Irmãs Thérèse, Marie-Angélique e Marguerite Marie, das nossas casas de Sainte Marie e de Saint Georges, e disse-lhes que "para se encontrar com a Irmã Lúcia, é necessário obter a autorização do Cardeal Ratzinger."


  8. Recordamos que o Padre Kondor sucedeu ao Padre Fuentes em 1961, depois deste ter sido demitido do cargo de postulador por ter revelado à imprensa umas declarações da Irmã Lúcia, em que ela apresentava as linhas principais da mensagem de Nossa Senhora que anunciavam a grave crise que estava para atingir a Igreja (cf. Frère Michel, The Whole Truth About Fatima, Vol. III, p. 503-510). É de assinalar que o Padre Kondor fala de 'indiscrições' do Padre Fuentes, e não de 'fabricações', o que indica que ele reconhece a autenticidade das palavras da Irmã Lúcia reproduzidas pelo Padre Fuentes. Quando este foi demitido, a Cúria diocesana de Coimbra emitiu uma nota, dizendo que o Postulador da causa da beatificação dos videntes de Fátima, Francisco e Jacinta, tinha inventado palavras que atribuiu à Irmã Lúcia. Citemos alguns extractos desta nota:

    "O Rev. Padre Augustín Fuentes, Postulador da causa da beatificação dos videntes de Fátima, Francisco e Jacinta, visitou a Irmã Lúcia no Carmelo de Coimbra e falou com ela exclusivamente de assuntos referentes ao processo de beatificação. Mas ao regressar ao México, o seu país natal, este sacerdote fez declarações sensacionais de natureza apocalíptica, escatológica e profética, que disse ter ouvido da Irmã Lúcia [...] Isto foi relatado n’A Voz do passado dia 22 de Junho, e novamente em 1 de Julho, numa tradução feita por M.C. de Bragança. Para serenar todos os que leram os artigos n’A Voz e que ficaram alarmados por relatos de cataclismos que, segundo a documentação, afectariam o mundo em 1960, e, acima de tudo, para pôr fim à campanha tendenciosa de "profecias", pela qual os seus autores, sem darem por isso, lançam o ridículo sobre si próprios e sobre as coisas relativas à Irmã Lúcia, a Cúria diocesana de Coimbra publica as palavras da Irmã Lúcia em resposta a perguntas que alguém de autoridade lhe fez: "O Padre Fuentes falou comigo na sua capacidade de Postulador da causa da beatificação dos Servos de Deus, Jacinta e Francisco Marto. Só falámos de coisas relativas a este assunto. Quanto a resto, a que nos referimos, nem é exacto nem verdadeiro. Lamento isto, porque não compreendo que bem possa vir às almas de coisas que não se baseiam em Deus, que é a Verdade. Não sei nada, e portanto não podia dizer nada, sobre calamidades, o que me foi atribuído falsamente." (Ibid., p. 549-550)

    Assim, na declaração de 2 de Julho de 1959, a Cúria episcopal de Coimbra acusou publicamente o Padre Fuentes de ter mentido. A sua reabilitação pelo Padre Alonso levou Frère Michel à seguinte conclusão a respeito desta declaração: "Tudo fica explicado se uma autoridade de Roma tivesse exigido ao Bispo de Coimbra que fizesse um desmentido formal e imediato. É um caso triste, em que, sem dúvida, nem a Irmã Lúcia nem o Padre Fuentes mentiram. E se a Cúria de Coimbra mentiu, foi sem dúvida para obedecer a ordens superiores." (Ibid., p. 553).

    Recordemos que os eclesiásticos já antes tinham mentido em relação à história de Fátima. Neste caso, foram membros da Cúria episcopal de Coimbra que mentiram descaradamente, chegando ao ponto de divulgar um alegado desmentido da Irmã Lúcia, falsificado a partir do nada por ordem da Autoridade Romana.


  9. Este foi o único argumento apresentado pelo Padre Kondor para justificar a decisão tomada pelo Bispo D. Alberto Cosme do Amaral de não publicar a obra do Padre Alonso. O Bispo de Leiria-Fátima obteve o apoio de uma comissão de professores universitários portugueses para esta decisão. O Padre Joaquín María Alonso, claretense espanhol e perito do Concílio, tinha sido nomeado oficialmente pelo Bispo de Leiria, Monsenhor Venâncio, em 1966, para compilar uma história crítica completa das aparições e da Mensagem de Fátima. Durante dez anos de trabalho, coligiu, classificou e comentou 5.396 documentos. Tratava-se de um trabalho insubstituível, cujo mérito particular era demonstrar a falsidade das teorias modernistas desenvolvidas pelo Padre Dhanis contra Fátima. Segundo Laurentin, que consultou a obra, os manuscritos de "Fátima, textos e estudos críticos" estavam "muito bem preparados."- (cf Le Secret de Fatima, in Historia, Maio de 1982, p. 48). Esta obra científica estava pronta para ser publicada em 1974 (cf. Padre Cristino, "La documentation critique de Fatima": Voz da Fátima, Janeiro de 1989), e em Novembro de 1976 o Padre Kondor divulgou a seguinte declaração: "A obra 'Fátima, textos e estudos críticos', que foi anunciada há algum tempo, vai finalmente começar a aparecer. O primeiro volume, em português, será publicado brevemente." (The Seers of Fatima, 1976, Nº 6) Mas afinal nada foi publicado. É permissível deduzir que, se o Santuário de Fátima não chegar a publicar esta obra, será especialmente para evitar dar crédito à tese do Padre Alonso sobre o Terceiro Segredo. Na verdade, o historiador oficial de Fátima tinha destinado um dos catorze volumes de "Fátima, textos e estudos críticos" à demonstração de que o Terceiro Segredo anuncia "a crise da Fé na Igreja" e "deficiências na hierarquia superior da Igreja". No terceiro volume do seu trabalho The Whole Truth About Fatima (‘Toda a verdade sobre Fátima’), Frère Michel resumiu e desenvolveu esta tese do Padre Alonso. Que nós saibamos, só o Padre Geraldes Freire e o Padre António Maria Martins continuam a aceitar uma hipótese diferente. O Padre Martins enviou a Frère Michel uma crítica ao seu terceiro volume, mas foi refutado pela resposta magistral deste último. (cf "The Third Secret of Fatima", CRC Nº 190, Maio de 1986, ed. em inglês).


  10. Em Dezembro de 1989, o Padre Fox lançou a sua campanha de desinformação, baseando-se essencialmente em relatos de encontros supostamente ocorridos no parlatório do Carmelo entre a Irmã Lúcia e Maria do Fetal. (cf. CRC 224, Dezembro de 1989, p. 22, ed. em inglês)


  11. O Padre Gruner publicou a tradução inglesa deste artigo, que apareceu na CRC entre Janeiro e Maio de 1990, na sua revista The Fatima Crusader. Num folheto a publicar brevemente, intitulado The Fatal Fox Consecration Hoax, será publicado mais deste material por The Fatima Crusader.

Nota do editor: Devido a uma falta de espaço, dois parágrafos e um parágrafo de conclusão foram eliminados.