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Bertone no “Vespeiro” da Controvérsia

Bertone no “Vespeiro” da Controvérsia

O programa de Televisão Porta a Porta deu a Bertone uma grande oportunidade para brilhar; mas em vez disso, ainda se comprometeu mais!
por Antonio Socci

Ao fim da tarde de quinta-feira [31 de Maio], o Vaticano sofreu um grande revés, que não se deveu ao Sr. Santoro, (com o seu programa de TV bem equilibrado sobre padres pedófilos), mas antes ao Sr. Bruno Vespa (um nome apropriado). Entre os convidados do programa do Sr. Vespa estava o Cardeal Bertone, Secretário de Estado do Vaticano, que marcou na sua próptia baliza de forma incrível:

Ele (sem querer) demonstrou que a parte mais explosiva do “Terceiro Segredo de Fátima” existe realmente, embora esteja bem oculta.

O Vaticano deve ter ficado bem embaraçado. Devemos agradecer expressamente ao Cardeal por este serviço prestado à causa da verdade (embora indirectamente). Agora resta-nos encorajá-lo para que nos diga tudo o que sabe, porque — como nos ensina o Evangelho — “A Verdade libertar-vos-á”. (A verdade [sobre o Terceiro Segredo] pode inferir-se, por exemplo, do que a Irmã Lúcia indicou ao Padre Fuentes, ou seja, que o “Quarto Segredo” contém especificamente um aviso profético dado por Nossa Senhora sobre a apostasia na Igreja, incluindo a crise terrível no clero depois do Concílio [Vaticano II], e, portanto, também os escândalos de que se fala no nosso tempo — como o dos “padres pedófilos”.)

Façamos um sumário do que aconteceu. Em Novembro de 2006, foi publicado o meu livro O Quarto Segredo de Fátima, em que provo que o Vaticano está a ocultar uma parte não revelada do Terceiro Segredo de Fátima. Em 10 de Maio de 2007, o Secretário de Estado do Vaticano publicou um livrinho contra mim, que continha alguns insultos, mas em que não dava uma só resposta. Não só isso, mas o livro de Bertone também acrescentava novas contradições (que apontei num artigo publicado no jornal Libero de 12 de Maio).

No fim da tarde de quinta-feira, [o canal nacional italiano de TV] RAI Uno transmitiu um episódio do programa “Porta a Porta”, intitulado “O Quarto Segredo de Fátima não existe”. Este título opunha-se explicitamente ao meu livro. Alguém podia esperar que este programa fosse “imparcial” e “livre de preconceitos”? Talvez o Sr. Vespa quisesse dar lições de objectividade e imparcialidade ao Sr. Santoro. Enquanto que, no programa de Santoro, estavam representados ambos os lados, Vespa apenas convidou o Cardeal Bertone; mas o autor destas linhas [eu], que era, de facto, o “alvo”, não foi convidado. Mostraram apenas um curto filme que explicava algumas das teses do meu livro. Assim, deram numa bandeja ao Cardeal Bertone a possibilidade de me atacar sem temer contradições. O Cardeal evitou usar as expressões fortes [insultos] que se encontram no seu livro (o que eu lhed agradeço), mas, acima de tudo, esquivou-se a todas as minhas questões. Mais uma vez, não deu uma única resposta.

E fez mais do que isso: Provou que eu tinha razão.

De facto, em certa altura o Prelate mostrou os envelopes que tinham sido abertos em 2000, quando a visão do “Bispo vestido de branco”, que é parte do Terceiro Segredo, foi publicada pela primeira vez. Mas faltava um pormenor que aqueles envelopes não podiam deixar de ter: uma frase do Papa João XXIII. De facto, o Arcebispo Capovilla, Secretário de João XXIII, declarou em duas entrevistas – a Orazio La Rocca (publicada no Repubblica de 26 de Junho de 2000) e a Marco Tosatti (no livro O Segredo por revelar), que em 1959, quando o Papa Roncalli leu o Terceiro Segredo e decidiu mantê-lo secreto, disse ao mesmo Capovilla para “voltar a fechar o envelope”, e escrever nele: “Não me pronuncio” porque a mensagem “pode ser uma manifestação divina, ou pode não ser”.

Então, onde está a frase que João XXIII
queria que escrevesse?

Não há sinal dela nos envelopes que Bertone mostrou. Portanto, deve estar noutro sítio qualquer. É óbvio que só pode estar no envelope que continha o “Quarto Segredo”, cuja existência foi confirmada sensacionalmente (pela primeira vez) ao Sr. Solideo Paolini pelo próprio Capovilla, como registei no meu livro. Bertone não deu qualquer explicação sobre a ausência daquela frase, e não respondeu ao que Capovilla revelou.

Afinal, a dúvida que Roncalli exprimiu sobre a origem divina daquela mensagem não podia referir-se ao texto da visão, revelado em 2000, que não contém qualquer “ponto delicado”, mas apenas ao “Quarto Segredo”, que falava da apostasia e da traição de parte dos membros da hierarquia superior da Igreja — como revelaram o Cardeal Ottaviani e o Cardeal Ciappi. Foi esse “Quarto Segredo”, sobre o qual João Paulo II declarou que “não tinha sido publicado porque podia ser mal interpretado”. Foi esse “Quarto Segredo” sobre o qual Ratzinger disse em 1996 que, para já, esses “pormenores” podiam ser prejudiciais à Fé. Foi esse “Quarto Segredo” sobre o qual o Secretário do Papa Wojtyla disse a Marco Politi (e a que ele depois se referiu no programa do Sr. Vespa): “É preciso prudência para compreender o que a Irmã Lúcia diz e o que Nossa Senhora diz.”

Mas durante o Porta a Porta, Bertone apresentou, sem querer, mais uma prova, ainda mais estrondosa, de que o “Quarto Segredo” existe.

De facto, deu as dimensões do envelope que continha o texto da visão: “9 cm x 14 cm”. O Prelado parece desconhecer que, desde 1982, um documento escrito pelo Arcebispo Venâncio, que levou pessoalmente do envelope contendo o “Quarto Segredo” [de Leiria] para a Nunciatura [em Lisboa], para ser expedido para Roma, está conservado no arquivo do Santuário de Fátima. O Arcebispo escreveu as medidas exactas do envelope da Irmã Lúcia, que eram 12 cm x 18 cm. Assim, segundo os documentos oficiais, tratava-se de um envelope completamente diferente [do que Bertone mediu].

Continha o texto do “Quarto Segredo”, que consistia em “uma folha de papel” com “25 linhas”, como testemunhou o Cardeal Ottaviani, e não em 4 páginas com 62 linhas, como o texto da visão mostrado por Bertone, que pareceu ficar extremamente embaraçado quando o Sr. Vespa lhe lembrou as palavras de Ottaviani: não sabia o que havia de responder.

Mas havia outro elemento que representava uma refutação estrondosa da reconstrução de Bertone. Durante o programa, foi mostrada uma frase escrita pela própria Irmã Lúcia (em dois envelopes diferentes), que era a seguinte:

“Por ordem expressa de Nossa Senhora, este envelope só pode ser aberto em 1960, por Sua Ex.cia Rev.ma o Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa ou por Sua Ex.cia Rev.ma o Senhor Bispo de Leiria”.

Como a Irmã Lúcia declarou muitas vezes, aquela data foi indicada por Nossa Senhora. Além disso, vimos durante o programa que ela até o tinha escrito. E aqui está exactamente o contrário do que Bertone afirmou, atribuindo-lhe [a Lúcia] a escolha dessa data. Se foi Nossa Senhora Quem escolheu a data, porque é que escolheu 1960? O que é que se estava a passar dentro da Igreja nesse ano? Roncalli tinha acabado de convocar o Segundo Concílio do Vaticano. Portanto, é natural que se acredite — como fazem os estudiosos de Fátima — que o Segredo continha uma profecia sobre uma apostasia terrível, que viria como consequência do Concílio (que aconteceu então e ainda está a acontecer). Esta é a razão para Roncalli ter ficado assustado, e ter decidido mantê-lo secreto.

Afinal, a frase pronunciada por Nossa Senhora, que foi sempre considerada como o início do Terceiro Segredo (“Em Portugal se conservará sempre o Dogma da Fé, etc.”), aponta para essa direcção. Durante muitas horas de conversas particulares, Bertone evitou sempre perguntar à Irmã Lúcia se tinha escrito, ou não, uma continuação dessa frase. E também evitou explicar o seu significado (visto que essas palavras, pronunciadas por Nossa Senhora, não podiam, como é óbvio, terminar com um simples “etc.”). No dossier do Vaticano (26 de Junho de 2000), porém, Bertone faz uma observação reveladora. A respeito desta frase, descreve-a como sendo “anotações” da Irmã Lúcia. Assim sendo, ele considera que essas palavras de Nossa Senhora não passavam de fantasias da Irmã Lúcia, como Roncalli insinuou? Ora se é este o caso, fariam bem em dizer-nos e em publicar livremente estas palavras, como é permitido para todas as mensagens deste tipo (Paulo VI liberalizou em 1966 este género de “literatura”).

Porque continua a negar a sua existência, apoiando uma tese que está cheia de buracos, e expondo assim a Igreja a grave chantagem?

O Cardeal Bertone encontra-se perante uma tarefa difícil e ingrata. Todos os dias surgem bocados da verdade sobre Fátima, que desacreditam as suas teorias (basta mencionar dois pormenores: durante o Porta a Porta referiu-se a um encontro plenário de Cardeais do Santo Ofício, que teve lugar em 1960, e também à data escrita no envelope da tradução, 6 de Março de 1967, factos que não aparecem na versão oficial).

Fundamentalmente, na carta que Bertone publicou, o Papa abre o caminho para a verdade, quando diz que em 2000 foram publicadas “as palavras autênticas da terceira parte do Segredo”. Está claramente a sugerir que há palavras do Segredo que são consideradas “não autênticas”. Portanto, tenha coragem: publique tudo! Não tenha medo. “A Verdade libertar-vos-á.”

Resposta a alguns leitores

Alguns dos meus leitores e apoiantes escandalizaram-se com a minha investigação sobre o Terceiro Segredo de Fátima, e com os artigos que publiquei em resposta ao Cardeal Bertone. Ninguém contesta os factos e os pormenores, mas a objecção é que, ao dizer a verdade que descobri, estou a prejudicar a Igreja.

Respondo que estou apenas a cumprir a minha obrigação de jornalista, de acordo com o estipulado no Compêndio de Doutrina Social, publicado pelo Conselho Pontifício para a Justiça e Paz:

“Para todos os que trabalham nos meios de comunicação, uma advertência de S. Paulo ressoa forte e claramente: ‘Cada um de vós, portanto, ponha de lado a falsidade e diga a verdade ao seu próximo’.” (Efésios 4:25)

Estou a escrever o que, em consciência, creio ser a verdade; se escrevesse o contrário, iria contra a minha consciência e — como ensinou o Papa Inocêncio III e o Catecismo Universal (n. 1790) reconheceu — “Agir contra a consciência traz a condenação”.

Além disso, como o Papa Bento XVI explicou em Ratisbona, a busca racional da verdade nunca é contra Deus (cf. Fides et Ratio). Isto é ainda mais importante no caso de uma busca das palavras autênticas pronunciadas por Nossa Senhora em Fátima. Finalmente, quem pensa que a verdade se deve esconder por uma “boa causa”, desvia-se da ortodoxia. Não sou eu quem o diz, mas — mais uma vez — o Catecismo Universal da Igreja, publicado por João Paulo II e pelo Cardeal Ratzinger:

“Fazer o mal para obter o bem nunca é permitido” (n. 1789).

Assim, o mandamento sobre “não prestar falso testemunho” também é válido para os Cardeais, e estes nunca podem invocar “motivos superiores” para justificar a mentira.

Por mim, acredito que a verdade vale sempre a pena. O Evangelho diz-nos isso claramente. Jesus disse: “A Verdade libertar-vos-á”. Não disse: tende cuidado, porque às vezes a verdade pode causar-vos problemas. Disse: “A Verdade libertar-vos-á” (e este significado está subjacente ao “mea culpa” pronunciado por Wojtyla). Esta frase do Evangelho aponta para a maravilhosa liberdade dos filhos de Deus. A Igreja não é uma espécie de seita ou grupo de pressão, que nos pede para ficarmos calados; é antes a casa de Deus, a casa da liberdade e da verdade. Deus não precisa das nossas mentiras, mas sim de que O escutemos com humildade e também que reconheçamos as nossas misérias (mesmo da parte dos Eclesiásticos). Sugiro que leiamos todos os memorável discurso do Cardeal Ratzinger sobre a consciência e a liberdade dos Cristãos, intitulado “O brinde do Cardeal”. Não é por acaso que o Catecismo Universal (n. 1778) cita esta maravilhosa frase do Cardeal Newman: “A consciência é o primeiro dos vigários de Cristo”.




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