Chegou a Hora

Consagrar a Rússia não prejudicará o diálogo
entre Católicos e Ortodoxos, antes o ajudará

por Cathy Pearson

Nota: O documento da Congregação para a Doutrina da Fé sobre a Mensagem de Fátima, datado de 26 de Junho de 2000, diz explicitamente que a Consagração foi feita em 1984, e que a Irmã Lúcia afirmara que tinha sido feita. Segue-se o comentário lacónico: “Portanto, não há motivo para mais discussões ou pedidos.” É evidente que, apesar desta asserção, os Católicos têm a liberdade de discutir este assunto. E é isto que Cathy faz no artigo que se segue. Cathy Pearson, uma católica americana leiga de fé profunda e piedade tradicional, propõe que o Papa devia novamente procurar a Consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria.

Em meados de 2007, o Patriarca Ortodoxo russo Alexei II predisse um efeito positivo nas relações entre as Igrejas Católica e Ortodoxa da publicação do Motu Proprio de Bento XVI sobre a liturgia antiga, Summorum Pontificum: “Nós seguimos fortemente a tradição. Recuperar e honrar uma antiga tradição litúrgica é um desenvolvimento com que nos podemos regozijar.” Assim se dissipou o receio de que a liberalização do acesso à Missa Latina Tradicional pudesse impedir a reconciliação com outras Igrejas.

Da mesma maneira, chegou a altura de desmentir quem ainda mantém que um pedido importante de Nossa Senhora de Fátima — a Consagração da Rússia, sendo mencionado o seu nome, ao Imaculado Coração de Maria pelo Papa em união com todos os bispos da Igreja — não pode ser atendido literalmente porque, se o fosse, poderia ofender os Ortodoxos russos. De todas as razões apresentadas nos últimos 60 anos para explicar por que razão é que uma sucessão de Papas não devia, não podia ou não queria fazer a Consagração da Rússia como tal, esta é certamente a menos persuasiva. Pelo contrário, Fátima apresenta talvez a melhor proposta do nosso tempo para quebrar o impasse na reconciliação entre Católicos e Ortodoxos.

Apesar dos grandes esforços do Vaticano para declarar que a história de Fátima já está concluída, há questões persistentes e legítimas que ainda se mantêm, uma das quais é se o pedido de Nossa Senhora da Consagração da Rússia foi atendido por uma série de Consagrações papais do mundo, e, se não foi, se devia agora ser tentada uma Consagração com a menção específica da Rússia.

Os leitores certamente conhecem a história de Fátima, a série de aparições marianas, ocorridas em 1917, a três pastorinhos portugueses — os irmãos Francisco e Jacinta Marto, que morreram não muito tempo depois e já foram beatificados, e a sua prima, a Irmã Lúcia, que viveu como religiosa de clausura até uma idade avançada e que, no convento, continuou a receber aparições e locuções na sequência das de Fátima. Auxiliada pelo espectacular “Milagre do Sol,” testemunhado por 70.000 pessoas na última aparição de Nossa Senhora em Fátima em 13 de Outubro de 1917, a Igreja aprovou há muito tempo a autenticidade das aparições, do milagre e das mensagens já publicadas de Fátima.

E partimos do princípio de que o leitor, pensando com a orientação da Igreja, não disputa a autenticidade do milagre de Fátima, a fiabilidade da Irmã Lúcia como testemunha, ou o conteúdo das palavras já reveladas, atribuídas a Nossa Senhora, visto que a Igreja, através de uma já longa sucessão de Papas, impôs nelas o selo da sua aprovação.

Nossa Senhora de Fátima
e a Rússia

Assim sendo, para começar no início, o que disse Nossa Senhora sobre a Rússia? Em 13 de Julho de 1917, durante uma aparição aos três pastorinhos, Ela disse-lhes uma coisa que eles não podiam revelar naquela altura, e que veio a ser conhecida como a “segunda parte” do Segredo. Depois de descrever terríveis castigos que cairiam sobre o mundo se a humanidade não parasse de ofender a Deus, Nossa Senhora disse: “Para o impedir [o castigo do mundo pela guerra, fome e perseguição à Igreja], virei pedir a Consagração da Rússia a Meu Imaculado Coração e a Comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a Meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas. Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-Me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz.”

Assim, Nossa Senhora descreveu em Fátima a Consagração como algo que Ela viria pedir no futuro.

Esta promessa cumpriu-se em 13 de Junho de 1929, quando a Irmã Lúcia, na altura no noviciado das Doroteias em Tuy, Espanha, estava a rezar sòzinha na capela. A Irmã Lúcia relatou uma visão de Cristo crucificado, com Maria aos pés da cruz do Seu Filho, com o mesmo aspecto que tivera em Fátima, e Ela disse-lhe:

“É chegado o momento em que Deus pede para o Santo Padre fazer, em união com todos os Bispos do mundo, a Consagração da Rússia ao Meu Imaculado Coração, prometendo salvá-la por este meio.”

É interessante notar que, enquanto que o pedido relativo aos Primeiros Sábados, acima citado — assim como outros pedidos de Fátima, como o Terço diário, o uso do escapulário, rezar e sacrificar-se pelos pecadores, evitar modas ofensivas à modéstia, e ser fiel aos deveres que a situação na vida impõe a cada um — são dirigidos aos fiéis em geral, este dirige-se especificamente ao Papa. E Nossa Senhora apresenta-o como vindo, não de Ela, mas de Deus: “...Deus pede ao Santo Padre.”

Isto foi sublinhado dois anos mais tarde, quando o próprio Nosso Senhor disse à Irmã Lúcia, “Faz saber aos Meus ministros que, como seguem o exemplo do Rei de França em atrasar a execução dos Meus pedidos, segui-lo-ão na desgraça… fá-lo-ão, mas será tarde. A Rússia terá já espalhado os seus erros pelo mundo, provocando guerras, perseguições à Igreja: o Santo Padre terá muito que sofrer.”

É fácil ver porque é que uma pessoa que aceite estas palavras considera de não pouca importância este pedido da Consagração da Rússia, assim como a resposta do Santo Padre a ele. Prometem-se bênçãos espantosas para todo o mundo se os Seus pedidos forem atendidos; e prevêem-se graves consequências se forem rejeitados. (Este “segundo Segredo,” revelado ao mundo quando as memórias da Irmã Lúcia foram publicadas em 1942, já tinha sido comunicado ao Santo Padre por carta particular.)

Entre as pessoas que têm levado Fátima a sério contam-se uma sucessão de Papas, de Bento XV a Bento XVI, tanto antes como depois de a Igreja ter aprovado formalmente a aparição em 1930. Não só não se distanciaram desta “revelação privada,” como, pelo contrário, adoptaram-na abertamente, com orações públicas, concessões de indulgências, a instituição da festa universal do Imaculado Coração, visitas ao Santuário de Fátima, e com correspondência ou visitas à Irmã Lúcia. E houve vários que fizeram Consagrações, claramente em resposta ao pedido de Nossa Senhora em Fátima:

De que é que têm medo?

Apesar de tudo isto, ou, de certa maneira, por causa disto, o assunto da Consagração pedida em Fátima continua a ser controverso. O que ninguém disputa é que, exceptuando a cerimónia privada de Pio XII nos jardins do Vaticano, nenhum destes actos consagrou a Rússia pelo seu nome. O que é disputado — e veementemente de ambos os lados — é se estas Consagrações do mundo, de que a Rússia obviamente faz parte, “contaram” como resposta adequada ao pedido de Nossa Senhora para se consagrar a Rússia.

A Rússia pode ser consagrada sem ser mencionada? O Vaticano diz que sim; os críticos dizem que não. Mas esta questão não é a mais importante. A pergunta que exige resposta, mas a que a Santa Sé nunca respondeu publicamente, é simplesmente esta: Porque é que a Rússia não foi mencionada? Porque é que isto é tão impensável? Qual é o problema?

O Papa João Paulo II iniciou o seu pontificado com uma exortação aos fiéis que, de certa maneira, ficou a ser a sua divisa: “Não tenhais medo.” Mas “medo” é precisamente o termo que descreve a reacção do Vaticano à ideia de consagrar a Rússia pelo seu nome, desde a década de 1930 até aos dias de hoje. Então, de que é que têm medo?

Vale a pena debruçarmo-nos sobre esta questão. Durante a era soviética, o medo de uma perseguição parecia ser uma explicação plausível e credível. Hoje pode-se especular sobre uma variedade de razões. Mas a explicação correntemente expressa com mais veemência é o receio de ofender os Ortodoxos.

É uim facto que esta preocupação tinha lugar de destaque na mente do Papa João XXIII, que queria assegurar a participação dos Ortodoxos russos no Concílio Vaticano II, o que levou a uma política de apaziguamento em relação ao Bloco Soviético que o seu sucessor, o Papa Paulo VI, também apoiou, tanto antes como depois da sua elevação à Cadeira de Pedro. A mesma lógica subjacente à sua triste promessa de que o Vaticano II e os seus documentos não teriam uma condenação do comunismo pode também servir para impedir a Consagração da Rússia.

O comunismo pode ter mordido o pó,1 mas dar prioridade à reconciliação entre Católicos e Ortodoxos continuou a ser uma preocupação importante dos pontificados de João Paulo II e de Bento XVI. Segundo uma notícia do Inside the Vaticano, de Novembro de 2000, um eminente Cardeal, que era um dos assessores mais próximos de João Paulo II, chegou mesmo a dizer particularmente que o Papa fora aconselhado a não mencionar a Rússia em qualquer cerimónia de Consagração, porque ofenderia os Ortodoxos russos. Ao que parece, os funcionários do Vaticano não estavam apenas a especular quando se referiram a esse medo. Recentemente, uma fonte de alto nível do Vaticano disse que os próprios Ortodoxos avisaram o Vaticano de que, se o Papa alguma vez mencionasse a Rússia numa Consagração, terminaria por completo o diálogo entre a Santa Sé e a Igreja Ortodoxa Russa.

Mas porque é que ofenderia
os Ortodoxos?

Se isto é verdade, pode resolver um velho mistério: porque é que nenhum Papa — por mais favorável a Fátima que fosse — ousou consagrar a Rússia pelo seu nome? Mas também eleva o mistério a um outro nível. Porque é que a Consagração da Rússia havia de ofender os Ortodoxos?

Vendo bem as coisas, a Consagração de um país não é um anátema ou um exorcismo. É uma invocação de uma bênção e protecção especiais. O facto de Maria distinguir uma nação, em particular, para receber um tal pedido é sinal do Seu afecto maternal especial.

Quando Nosso Senhor disse a Stª Margarida Maria que levasse o Rei de França a consagrar o reino ao Seu Sagrado Coração, a França era um país católico que tinha em grande estima o seu título de “filha mais velha” da Cristandade. Só muito mais tarde é que a Revolução e o Reino do Terror manifestaram os seus males, contra os quais a Consagração poderia ter protegido a França, se tivesse sido feita na altura em que foi pedida.

Em contraste, quando a Irmã Lúcia comunicou aos bispos portugueses o pedido especial de Nossa Senhora, de que Lhe consagrassem Portugal, eles cumpriram-no com alegria, num acto episcopal que muitos acreditaram mais tarde que teria mantido o país em paz durante a Guerra Civil de Espanha e a Segunda Guerra Mundial.

Poder-se-ia esperar que qualquer nação que venere a Mãe Santíssima visse como um privilégio invejável o ter sido escolhida pela Bem-Aventurada Virgem Maria para uma tal dignidade. Os Ortodoxos russos veneram Maria, e embora possam não aceitar o milagre e a Mensagem de Fátima, acreditam, ao contrário de algumas denominações cristãs, que Ela pode intervir pessoalmente, e de facto intervem, na história da Humanidade. A sua tradição é rica em milagres marianos e revelações particulares oficialmente aceites e muitas vezes associadas a ícones específicos.

Assim, se os problemas teológicos parecem não a impedir, porque é que a Consagração pedida em Fátima ofende os Ortodoxos russos? É importante determinar a razão porque, se os problemas subjacentes forem identificados e confrontados abertamente, talvez possam ser resolvidos juntamente, com base na razão, boa vontade e um diálogo autêntico. E talvez então possa anular-se o impedimento, em vez de se rejeitarem os benefícios da Consagração.

Mais uma vez, a especulação leva-nos a várias explicações possíveis:

  1. Territorialidade canónica. Como há muito mais Ortodoxos do que Católicos na Rússia, qualquer acto papal especificamente dedicado à Rússia não pareceria uma presunção, uma invasão do “território ortodoxo’’? Se este é o problema, devia ser mais fácil de resolver, agora que uma presença diocesana católica é pelo menos aceite na Rússia, e o acto podia considerar-se como dizendo respeito sobretudo aos Católicos russos, embora os respectivos benefícios (se ocorressem como os Católicos esperam) fossem sentidos por todos. Quando, na década de 1950, os Católicos russos pediram a Pio XII a Consagração, não só eram um grupo muito pequeno, como também uma minoria oprimida e em grande parte na clandestinidade.


  2. Orgulho. Os Russos sentir-se-iam insultados pela sugestão de que têm maior necessidade de se converter do que os povos de outros países? O pedido de Nossa Senhora para a Consagração da Rússia foi feito no contexto de discutir não só a sua necessidade de se converter (o que deve ser a preocupação constante de todas as pessoas, mesmo as que estão em estado de graça), mas também os seus erros futuros, as perseguições e as responsabilidades por guerras, martírios e aniquilação de nações. Este contexto faria a Consagração parecem uma repreensão ou um exorcismo, embora não o fosse pela sua própria natureza? Mas, visto que estes males são geralmente identificados com o comunismo soviético, e não com o povo russo, dá ideia de que os cristãos ortodoxos — muitos dos quais também sofreram imenso durante o regime soviético — teriam mais razão para ver uma possível repreensão como sendo dirigida aos seus antigos opressores, e não a eles próprios.

    Seria possível tornar claro o facto de que ser consagrado a Nossa Senhora — seja o próprio ou outro a fazê-lo — não limita, de forma nenhuma, a liberdade de um indivíduo ou de uma nação, e apenas faz deles beneficiários da protecção e carinho da Mãe de Deus. Estre pensamento seria anátema para um regime ateu, mas seria antes a honra mais natural para uma cultura tão dedicada à devoção mariana como a Ortodoxia russa tem sempre sido. Na verdade, foi a Igreja Ortodoxa Russa que promoveu sempre a ideia de que a “Santa Rússia” herdou um papel verdadeiramente único na Cristandade e na história da salvação.


  3. Sectarismo. Seriam quaisquer orações católicas pela “conversão da Rússia” — especialmente nesta era pós-soviética, já vista por alguns como uma conversão do comunismo — interpretadas como tendo por fim uma conversão da Ortodoxia ao Catolicismo? (Trata-se aqui de um desejo e intenção de orações perfeitamente apropriados aos Católicos, mas que, como se compreende, seria um ponto delicado para os Ortodoxos.)

    Isto, ainda mais do que o problema de “território”, é uma objecção potencial que afecta de facto os Ortodoxos russos, não só como russos também como Ortodoxos, e as relações entre as Igrejas Católica e Ortodoxa como entidades religiosas distintas e, portanto, rivais em potência na conquista dos corações dos fiéis. Este problema da conversão religiosa, que está subjacente à oposição à Consagração pedida em Fátima, é apenas um sintoma de um problema autêntico que o diálogo entre Católicos e Ortodoxos teria de confrontar mais tarde ou mais cedo. Mas, como se verá mais adiante, as preocupações que os russos ortodoxos — ou católicos — teriam em perder os seus fiéis através de uma conversão à outra Igreja seriam desvanecidas e não exacerbadas, o que parece ser um paradoxo, pela Consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria.


  4. 4. Pressão vinda de fontes seculares. Assim como é possível que os Papas ou outros dignitários do Vaticano tenham receado consagrar a Rússia devido a pressões ou ameaças de forças estranhas à Igreja e hostis a ela, determinadas a impedir os benefícios sobrenaturais que a Consagração iria trazer, também é possível que, enquanto o Vaticano apenas tinha receio de ofender os Ortodoxos russos, estes poderiam ser motivados nas suas objecções por pressões ou ameaças vindas de forças não-eclesiásticas na Rússia. É fácil compreender como isto teria sucedido durante o período soviético, por exemplo, quando o Papa João XXIII estava a negociar a participação dos Ortodoxos russos no Concílio Vaticano II, numa altura em que a Igreja Ortodoxa na Rússia — ou antes, os poucos que tinham sobrevivido às perseguições e martírios atrozes, que tantas vítimas fizeram — estava sob controlo rigoroso do Estado soviético e, nalguns casos, infiltrada por agentes do KGB. Seria difícil os negociadores do Vaticano saberem se uma exigência dos Ortodoxos seria deles, enquanto eclesiásticos — por exemplo, quanto a assuntos teológicos ou sectários— ou se provinha de exigências por parte do Estado, que os eclesiásticos estavam constrangidos a apresentar por causa de pressões subtis ou declaradas.

    O facto de a União Soviética já ter passado à história não significa que a Igreja Ortodoxa Russa esteja imune a pressões potenciais de fontes seculares hostis ou centradas nos seus próprios interesses, sejam eles de natureza política, militar ou económica, assim como, pelo facto de ter a vantagem de trabalhar no seu próprio Estado da Cidade do Vaticano, a Igreja Católica não está imune a pressões semelhantes de forças exteriores a ela, com motivações nãio-eclesiásticas inapropriadas. Nem o Vaticano tem sido imune à infiltração; conhecem-se hoje casos em que espiões soviéticos, no auge da Guerra Fria, e até mesmo, segundo alguns dizem, satanistas disfarçados, conseguiram insinuar-se na burocracia do Vaticano. Como o Cristianismo está numa situação permanente de guerra espiritual, não pode surpreender ou ofender ninguém, seja ele Católico ou Ortodoxo, o facto de que Satanás é um mestre na guerra moderna e utiliza operações clandestinas para atacar os seus inimigos onde seja possível — especialmente os que tomaram Ordens sacras ou asseguram posições de influência nas comunidades cristãs.

Colaborar com os amigos,
reconhecer os inimigos

É interessante estudar ambos os grupos de impedimentos potenciais à Consagração da Rússia pedida em Fátima — as razões impedindo o Vaticano e as razões que motivam os Ortodoxos a objectar — e verificar que, na verdade, os obstáculos são apenas de três tipos:

(1) negar ou duvidar do poder da Mãe de Deus; (2) pressão do que reconhecem o Seu poder e se lhe opõem (quer façam pressão sobre a Santa Sé ou sobre os responsáveis ortodoxos russos, ou ambos); e (3) pontos autênticos de desacordo potencial entre Católicos e Ortodoxos, ambos reconhecendo a Mãe de Deus e considerando-se do Seu lado, mesmo que nem sempre concordem uns com os outros sobre onde ele está.

A primeira categoria é um assunto de fé, abrangendo, por exemplo, problemas potenciais como bispos recalcitrantes, ideólogos eclesiásticos anti-marianos, ou Pontífices receosos do escândalo se a Rússia fosse consagrada e depois não acontecesse nada. Pouco se pode fazer, a não ser rezar para que todos os eclesiásticos com um papel a desempenhar neste processo, seja ela qual for, recebam a graça de exercer as suas tarefas com uma recta atitude.

A segunda e terceira categorias pedem acção, embora seja uma acção muito diferente em cada caso. Ambas, porém, representam impedimentos que podem e devem levar os responsáveis católicos e ortodoxos a trabalhar em conjunto para os superar. Esta afirmação decerto surpreenderá ambas as partes. Mas, vendo bem a situação, pode-ser verificar que o potencial de Fátima para unir os grandes ramos Oriental e Ocidental do Cristianismo é muito maior do que o seu potencial para os dividir ainda mais.

A tragédia do Grande Cisma é que as Igrejas Católica e Igreja Ortodoxa estão muito próximas quanto a crenças, orações, cultura, devoção, vida litúrgica e sacramental, mas que, apesar disto, têm-se mantido divididas desde há séculos. Ambas fazem remontar a sua teologia às raízes apostólicas. Os seus credos apenas diferem em alguns dos muitos artigos de fé. Rezam aos mesmos santos que partilharam um milénio de história comum. As suas práticas litúrgicas — especialmente comparando as liturgias ortodoxas com os Ritos Orientais do Catolicismo — seriam difíceis de separar para um observador casual. A posição exaltada da Mãe de Deus — não apenas na teologia, na piedade pessoal e na arte, mas até na experiência prática da Sua intervenção na história e na vida dos homens — é uma poderosa dimensão unificadora que as Igrejas Católica e Ortodoxa partilham.

O facto de ter tanto de comum na terra — e um amigo tão poderoso no Céu — requer que Católicos e Ortodoxos se vejam como amigos, com um programa comum de enfrentar com honestidade os pontos que os dividem e opor-se juntamente às forças que ambos reconhhecem como os seus autênticos inimigos. Distinguir as duas situações e responder-lhes de forma apropriada é da maior importância.

Ultrapassar um impasse ecuménico

Debrucemo-nos primeiro sobre as diferenças entre amigos. Fátima tem o potencial de quebrar o impasse secular que impede a Igreja Ortodoxa de se reconciliar com Roma. Devemos começar por reconhecer que, apesar de ambas as partes professarem o desejo de unidade, apesar das muitas horas que têm sido dedicadas ao diálogo e às discussões teológicas, apesar da máxima prioridade que os últimos Pontífices têm dado a esta missão, e apesar de sucessos importantes, até no actual pontificado, o facto é que a unidade continua a ser tão fugaz como sempre. Durante séculos, pouco se fez em relação às poucas, mas importantes, diferenças eclesiológicas e doutrinais que separam Católicos e Ortodoxos. É irónico observar que não se podem aproximar mais, precisamente porque já são tão próximos.

Se os Católicos e os Ortodoxos fossem denominações protestantes, grupos cristãos dissidentes, movimentos teológicos ou associações de pastores auto-ordenados, podiam sentar-se à roda de uma mesa e repensar as suas doutrinas ou encontrar uma solução de compromisso para as suas diferenças, porque tudo isso são entidades criadas por seres humanos. Mas nem a Igreja Ortodoxa nem a Igreja Católica acham que têm o direito a comprometer a sua doutrina, culto ou jurisdição.

Tanto o Catolicismo como a Ortodoxia professam ter transmitido fielmente a autêntica doutrina cristã desde os tempos apostólicos, que a sua liturgia se desenvolveu organicamente desde os primeiros tempos, e que a autoridade invocada e aplicada pela sua hierarquia é um conjunto de direitos e responsabilidades de derivação apostólica directa.

Esta afirmação de verdade e autoridade imutáveis contrasta de tal maneira com o resto do mundo cristão que deviam criar uma ligação poderosa entre Católicos e Ortodoxos, que os aproximasse. E é o que sucede, mas apenas até ao ponto em que ambas as partes, para serem fiéis, começam a insistir em que é impossível chegar a mais algum acordo. É evidente que este impasse não pode ser eliminado apenas com meios humanos.

Isto deixa ambas as Igrejas como rivais, cujos esforços paralelos para serem fiéis ao chamamento de Cristo para evangelizar as coloca potencialmente em conflito quando se encontram a tentar avançar no mesmo território geográfico ou nos corações do mesmo povo. A Rússia e os russos, neste caso. Por exemplo, até que ponto deve a Igreja Católica ceder à Igreja Ortodoxa Russa o lugar de presumível voz principal do Cristianismo na sociedade russa? Até que ponto deve a Igreja Ortodoxa Russa dar espaço às congregações, estruturas diocesanas e movimentos de catequese católicos, já não limitados a servir comunidades de expatriados ou “minorias etnicamente católicas,” mas colocados dentro da população russa? Até que ponto deve cada Igreja aceitar ou promover conversões individuais dos fiéis da outrra Igreja?

Nas décadas recentes, houve conversões de personalidades de destaque em ambas as direcções — crentes ortodoxos que encontraram individualmente, à maneira de Newman, o seu caminho para Roma, e um número apreciável de Católicos ocidentais fugiu à revolução litúrgica nas suas paróquias, encontrando um lar na Ortodoxia.

Não seria impedimento às relações amigáveis entre Católicos e Ortodoxos russos se estes viessem a admitir que ficariam encantados se todos os Cristãos na Rússia aderissem à Ortodoxia, ou se os Católicos admitissem que ficariam encantados se todos os Cristãos do mundo professassem o Catolicismo. No fim de contas, tanto os responsáveis católicos como os ortodoxos tornaram bem claro que preferiam, de facto, uma solução que terminasse com o cisma sem extinguir a identidade da antiga Igreja cismática a uma conversão em massa dos fiéis, ou mesmo a manter a separação, tal como hoje se encontra.

Mas, entretanto, não há progresso à mesa do diálogo que dispense um indivíduo de aderir à Verdade Divina, onde a possa encontrar na sua plenitude, como não dispensa quem crê que possui a verdade de a partilhar com outros. Sempre que há um conflito entre duas posições detentoras da verdade, quem não estiver de acordo com a eterna Verdade Divina está no erro, e todos os crentes sinceros só podem rezar para que eles e os outros se convertam das crenças que tiverem que estejam de facto erradas.

A surpreendente solução de Nossa Senhora

Vem Nossa Senhora of Fátima prometer a conversão da Rússia. À primeira vista, parece que Ela está a avançar exactamente no terreno em que os Ortodoxos recuariam. As orações dos Católicos para a conversão da Rússia pressupõem que todos os russos deixem a Igreja Ortodoxa e se tornem Católicos? É verdade que os Católicos podem imaginar este cenário, mas a verdade é que não é importante o que os Católicos pensam que irá acontecer; não são eles quem irá decidir, mas Maria.

Não há uma Maria Católica e uma Maria Ortodoxa; há apenas uma Mãe de Deus, a quem ambas as partes têm recorrido ao longo da história cristã, e em Quem ambas as partes depositam uma confiança total. Independentemente das interpretações erróneas da doutrina ou do governo da Igreja em que os Católicos ou os Ortodoxos tenham caído — seja na realidade, seja aos olhos da outra parte — Maria não pode nem quer fazer senão a Vontade de Deus. Se um Católico devoto ou um Ortodoxo russo devoto pudesse conhecer, de facto, a Vontade de Deus e o desejo do Coração de Maria, era isso que certamente quereriam, fossem quais fossem os seus princípios.

Que género de conversão quer Deus da Rússia? Católicos e Ortodoxos certamente responderiam de maneira diferente, se lhes fosse perguntado, mas a beleza de Fátima é que ninguém tem de descobrir o que está certo para a atingir. A chave encontra-se no modo como Nossa Senhora de Fátima fez o seu pedido e a sua promessa:

“Virei pedir a Consagração da Rússia ao Meu Imaculado Coração... Se atenderem a Meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz... O Santo Padre consagrar-Me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz.”

Note-se a quem são atribuídas estas tarefas. Nossa Senhora não diz: “Se vocês converterem a Rússia, Eu trarei a paz.” Pede apenas ao Papa que Lhe consagre a Rússia, para que seja o instrumento do Céu, realizando este acto. Não lhe pede que converta a Rússia, ou que decida de que género de conversão é que a Rússia precisa. Nem pergunta aos Católicos ou aos Ortodoxos russos ou a qualquer outro agente humano.

Em vez disso, a conversão é parte do que Ela promete em troca; “a Rússia converter-se-á.” É a Sua missão, e não a nossa.

Esta distinção é profundamente significativa. Em primeiro lugar quer dizer que ninguém tem de delinear, decidir ou assentar no tipo de conversão que Ela tinha em mente para cumprir os Seus pedidos e esperar obter as Suas promessas.

Suponhamos que a Rússia é consagrada pelo Papa em união com todos os bispos católicos, tal como Nossa Senhora pediu. Tanto os Católicos como os Ortodoxos poderão compreender de que maneira se devem conformar com a Vontade de Deus nas suas relações, observando o que irá acontecer.

Se as mudanças mais visíveis fossem antes no domínio de todos — um nível mais elevado de funcionalismo público, o fim de todos os géneros de abuso de autoridade, o desabrochar da justiça social, o aparecimento de instituições harmoniosas de governo, a reconciliação entre regiõesd e grupos étnicos, o desaparecimento da corrupção política e do crime organizado, políticas internacionais reflectindo um compromisso profundo de civis e militares pela paz, uma contagem e desactivação das armas nucleares, honrar a Deus na praça pública — bem, isto seria o género de conversão que Ela tinha em mente.

Ou se os dirigentes ortodoxos e os simples fiéis se vissem repentinamente tomados do desejo de se reconciliarem com Roma e já não encontrassem obstáculos à autoridade papal e ao ensino do Magistério, isto sugeria que era o género de conversão que Deus desejava.

Ou se — pondo de lado a filiação religiosa — crescesse espontaneamente entre o povo uma grande reforma moral ao nível de cada um, levando os russos a desviar-se com repugnância dos vícios, tais como o aborto e a pornografia e o alcoolismo, incutindo-lhes uma ânsia pela castidade e pelo compromisso marital por toda a visa, revolucionando o modo como fazem negócios e como dão a educação, manifestando-se num nível elevado de altruísmo marcado por actos de caridade e pelo desejo de filhos, e cimentando tudo isto com um florescimento da fé e do fervor religioso, então este tipo de conversão da vida seria obviamente o que Maria desejava.

E se, no contexto de um tal renascimento, se seguisse um aumento das vocações religiosas, uma impulsão do monasticismo, um grande aumento da participação na liturgia e nos sacramentos, e se isto ocorresse não só entre os Católicos na Rússia mas também, ou mesmo especialmente, entre os Ortodoxos, então tanto os dirigentes católicos como os ortodoxos veriam claramente que o Céu olhara com especial favor para a Ortodoxia russa e quis conservá-la de uma maneira especial dentro da Igreja Universal.

A conversão da Rússia, fosse qual fosse a forma que tomasse, levaria a humanidade a voltar-se com grande esperança para o cumprimento da promessa seguinte — um tempo de paz — e também teria, certamente, o resultado que Nosso Senhor disse à Irmã Lúcia que seria a sua finalidade principal: uma grande efusão de agradecimento e devoção ao Imaculado Coração de Maria.

A conversão da Rússia, quer leve os russos a abraçar a Fé Católica ou a aprofundar a sua fé ortodoxa, ou ambas as coisas, pode ter ou não ter um impacto directo no diálogo entre Católicos e Ortodoxos. Os Ortodoxos podiam ser inspirados a aproximar-se do ponto de vista católico, ou a hierarquia e os teólogos católicos podiam ser inspirados a ver certas questões sob um novo aspecto que aproximasse ambas as partes, ou podiam ambas as partes continuar a fazer por superar as suas diferenças conforme o máximo da sua capacidade humana. Mas o novo nível de virtude, bondade e avertura à verdade do Espírito Santo faria pelo menos com que esta tarefa fosse mais doce e mais produtiva.

Os Ortodoxos russos não têm nenhuma razão para se oporem a uma Consagração papal da Rússia com base na religião. Isto não constitui um problema para eles. Se um tal acto fosse de facto vazio, sem sentido, inapropriado e / ou não correspondendo ao cumprimento de um autêntico pedido do Céu, ou não desse quaisquer resultados visíveis, não teria nenhum impacto.

Mas se, de facto, Deus quer que ela se faça, e que tenha um ou todos os impactos acima enumerados, provaria ser uma bênção inestimável para o povo russo, para as relações entre Ortodoxos e Católicos, e para o mundo inteiro.

Enfrentando o inimigo comum

O combate — diz-nos o Espírito Santo através de S. Paulo — não é “contra a carne e o sangue, mas contra os principados e as potestades, os governantes deste mundo de escuridão, os espíritos maus em altos cargos.” (Ef. 6:12) Ora se os crentes fiéis, sejam eles Católicos ou Ortodoxos, não têm nada a perder e tudo a ganhar — de facto, uma imensidade a ganhar — com a Consagração da Rússia tal como Nossa Senhora a pediu, convém que ambas as partes examinem cuidadosamente — uma vez superados os obstáculos causados pelos seus próprios medos — a questão de quem, ou o quê, possa estar a trabalhar fora da Igreja para impedir que tal aconteça.

Forças externas — talvez devêssemos antes dizer infernais — podem estar a exercer pressões dentro do Vaticano ou entre as fileiras dos Ortodoxos, ou em ambos os casos. Podem estar mesmo a fazer ameaças, ou simplesmente a colocar-se em lugares de onde possam manipular os pensamentos e os receios dos outros, para reforçar a ideia de que a Consagração da Rússia é uma coisa que seria problemática de muitas maneiras, que seria melhor não se fazer, ou pelo menos não se fazer neste momento.

A altura é importante

É trágico pensar na imensidão do sofrimento humano derivado dos males do século passado — a “guerra pior” (a Segunda Guerra Mundial) que Nossa Senhora profetizou, o flagelo do Nazismo, a subjugação da Europa Oriental, as perseguições à Igreja na Rússia, na Espanha e ainda hoje na China, e os incontáveis milhões de assassínios saídos da Caixa de Pandora do Bolchevismo (Lénine, Stáline, Mao, Pol Pot e numerosos revolucionários locais, à medida que os erros da Rússia se espalharam pelo mundo) — até o holocausto mundial do aborto começou na Rússia Soviética. Tudo isto pofia ter sido evitado se tivessem sido atendidos os pedidos de Nossa Senhora, por exemplo, no início da década de 1930.

E o Inimigo das Almas nunca descansa. Quem pode saber que planos estará ele agora mesmo a preparar — novos tiranos carismáticos a ser preparados para conduzir as massas nalguma parte do mundo, novos escândalos a serem orquestrados para destabilizar e derrubar governos, novas visões do mal a serem alimentadas nas mentes de terroristas, novas maneiras de minar o casamento e a vida familiar, novas guerras entre nações e civilizações inteiras, novos escândalos e perseguições para prejudicar a Igreja? Quem pode saber onde ele possa estar a esconder armas nucleares e a conspirar para as pôr nas mãos erradas? Quem pode saber que horrores estará a aperfeiçoar nalgum laboratório desconhecido, quase pronto para saltar da sala de projectos para os noticiários da noite — uma nova doença, um novo tipo de desastre natural, uma monstrosidade manipulada geneticamente, ou uma nova arma de destruição maciça?

Uma corrida até ao fim

Maria e o Seu inimigo estão desde o começo da história numa corrida contra o tempo. Os Católicos e os Ortodoxos russos estão numa posição única para formar uma vanguarda contra este inimigo manhoso.

Os anos 90 e agora o Século XXI deram-nos prfovas abundantes de que o Inimigo não dorme. A crise moral à escala planetária agravou-se muito — a guerra contra os que estão para nascer transformou-se em clonagem e na exploração do embrião; as exigências dos homossexuais transformaram-se da tolerância para com a perversão na intolerância para quem tem ideias contrárias; a cultura popular afundou-se ainda mais na violência e na degradação. Na arena geopolítica, assistimos a guerras constantes no Médio Oriente, o ataque de 11 de Setembro e a aparição do Islamismo militante, genocídio na África, limpeza étnica nos Balcãs, provocações nucleares na Coreia, aceitação da tortura, e o espectro global do terrorismo. Há o fenómeno da globalização — concentrando cada vez mais o poder económico e político em menos mãos e em entidades maiores — que tem potencial para o avanço humano mas que também faz com que os indivíduos tenham menos poder e com que o mal seja potencialmente mais difícil de combater.

Na sombra, nas áreas cinzentas em que os “actos de Deus” nem vsempre se podem separar facilmente do trabalho de mãos humanas — talvez mãos humanas ajudadas por interferência diabólica — assistimos a uma torrente de desastres humanitários e ecológicos: fomes, secas, desertificação, padrões meteorológicos estranhos, tsunamis, furacões, terramotos, fogos incontroláveis, desenvolvimentos na tecnologia de espionagem electrónica e recolha de dados, novas e terríveis doenças, bebés por encomenda, aquecimento global, e avanços na tecnologia das armas químicas e biológicas.

Não tenhais medo!

Parece evidente que, se há um meio de introduzir neste ambiente contemporâneo, perigoso e volátil, quaisquer dádivas do Céu, como a conversão geral de uma das maiores nações do mundo e um período de paz para o mundo inteiro, quanto mais depressa se fizesse isso, melhor. E, do ponto de vista do demónio, até um pequeno atraso pode representar uma vitória cobiçada se lhe dá uma oportunidade para desencadear mais uma nova praga desconhecida — no sentido literal ou figurativo — sobre a humanidade.

A autora talvez não tenha sido a única pessoa a ficar fascinada, no seu primeiro ano como estudante de Latim, com a palavra “timebam” (que significa “eu tinha medo.”) Se for pronunciada meio em inglês, meio em latim, faz lembrar a palavra inglesa “time-bomb” (bomba-relógio). De certa maneira, é uma evocação apropriada para o mandato arquivado da Santa Sé para consagrar a Rússia pelo seu nome: uma bomba-relógio a fazer tic-tac, a pedir para ser desactivada, enquanto os funcionários do Vaticano olham para ela à distância, desconfiados, fazendo por a esconder da vista, e dizendo, na realidade: “Eu podiab tê-la desarmado, mas tinha medo

É altura de perguntar à Santa Sé o mesmo que atrás fizemos aos Ortodoxos: De que é que têm medo? Qual é o problema?

É evidente que não há problema em fazer a Consagração de novo, lá porque já teria supostamente sido feita anteriormente. Isso não impediu as sete ou mais repetições, nem sequer a do ano 2000, depois de se ter proclamado de modo definitivo que o Céu tinha aceitado a versão de 1984. Pode sempre apresentar-se apenas como uma renovação. ou então abertamente, como um desejo de fazer ainda mais perfeitamente a Vontade de Deus e atender os pedidos de Nossa Senhora. O anúncio podia até repetir as palavras de Nossa Senhora de 1929, depois do atraso inexplicável de 12 anos a partir da sua menção original do assunto em 1917: “É chegado o momento... “

Se, de facto, a Consagração já foi feita, uma repetição desnecessária seria, na pior das hipóteses, supérflua. E se, de facto, irritou o Governo russo, ou os Ortodoxos russos, ou quem quer que seja, por quanto tempo e com quanta energia se esperará que protestem contra um gesto sem significado, mesmo que constitua um faux-pas? Se um diálogo sério pode ser interrompido por uma razão tão fraca, é porque, de qualquer maneira, não iria longe.

Como acima está explicado, há razões sólidas para crer que as objecções dos Ortodoxos— se forem fundadas em questões religiosas e não resultarem de pressões políticas — podem ser superadas adiantadamente, se se fizer um esforço sério para discutir com eles as suas objecções. Sob o ponto de vista da lógica, não há razão, seja ela sem sentido ou de facto, para os Ortodoxos russos se oporem à Consagração ou se sentirem ameaçados por ela. No último caso, a resposta de Nossa Senhora da Rússia ajudaria tanto os Católicos como os Ortodoxos a compreender melhor a Vontade de Deus e a conformar-se mais perfeitamente com ela, o que ambas as partes certamente querem. Se os Ortodoxos russos têm, de facto, conbatido até agora a Consagração, isto só pode resultar de um mal-entendido — o que é precisamente o género de problema para o qual um diálogo e uma discussão autênticos são um remédio apropriado.

Notas:

  1. “O comunismo mordeu o pó” são as palavras exactas da autora. Nós sabemos que a profecia de Fátima diz-nos claramente que, se a Rússia se converter a tempo, será um instrumento providencial de misericórdia para todos os homens e ajudará a trazer a paz a todo o mundo. Por outro lado, se a Rússia não for devidamente consagrada a tempo, será “um instrumento de castigo, escolhido pelo Céu para punir todo o mundo (pelos seus pecados),” como a Irmã Lúcia explicou. O comunismo pode ter-se encolhido, “mordido o pó”, em 1989-1991, mas já há muitas indicações de que está a esforçar-se para voltar, mais forte do que nunca, num futuro próximo.

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    Na série "Testemunhos publicados":

    O Padre Fuentes (1957)
    Neues Europa (1962)
    O Padre Alonso (1975-1981)
    O Papa João Paulo II em Fulda, Alemanha (1980)
    A carta da Irmã Lúcia (1982)
    O Bispo de Leiria-Fátima (10 de Setembro de 1984)
    Mais algumas testemunhas (dos anos 1930 a 2003)