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Lawler ainda não percebeu (ou não quer perceber)

por Christopher A. Ferrara
18 de Dezembro de 2017

Na altura em que se prepara para lançar o seu livro a criticar o que ele próprio chama “este Papado desastroso,” intitulado sensacionalmente “O Pastor perdido: Como o Papa Francisco está a enganar o seu rebanho,” parece que Philip Lawler continua ainda a agarrar-se aos últimos farrapos que restam da narrativa “normalista”.

Respondendo a críticas do catholiculture.org por não ter fornecido qualquer comentário sobre a publicação da carta do Papa aos Bispos da Argentina, sobre a implementação da Amoris Laetitia (AL) nas Acta Apostolicae Sedis (AAS), juntamente com um rescrito papal a declarar que a carta é “Magisterium autêntico”, Lawler nega que este desenvolvimento tenha alguma importância real. Segundo ele, “Não se mudou muito com o aparecimento da carta do Papa nas Acta Apostolicae Sedis, ou com a informação do Cardeal Parolin de que a declaração papal era magisterial.”

Lawler continua a manter que “uma carta particular do Papa não pode ser entendida ao mesmo nível que um documento papal formal, mesmo se essa carta é mais tarde tornada pública.” Ora vamos lá! O Papa Francisco fez mais do que dar ao público uma carta particular, e Lawler sabe que é assim. O rescrito papal declara que a missiva passa a ser elevada ao estatuto de uma “carta apostólica” e que a “carta apostólica,” juntamente com as directrizes argentinas que aprova, são “Magisterium autêntico.” 

Claro que, apesar da etiqueta que Francisco lhe aplicou, a carta apostólica não é “Magisterium autêntico” — não porque a carta é “particular,” mas sim porque contradiz o que o Magisterium sempre ensinou com respeito ao acesso aos Sacramentos pelos divorciados e “recasados.” Mas Lawler não vai por aí. Em vez disso, Lawler insiste que “Se o Papa Francisco fez uma declaração magisterial sobre o matrimónio, fê-la em Amoris Laetitia.”

A sério? Francisco declarou expressamente que a sua carta aos Bispos da Argentina é uma “carta apostólica”, e que a sua aprovação à interpretação da AL que eles fizeram é “Magisterium autêntico.” Mas Lawler recusa-se a aceitar as implicações da etiqueta que o Papa Francisco colocou na sua novidade, numa tentativa transparente de nos forçar a aceitá-la como doutrina católica autêntica sobre a fé e a moral.

Citando o ponto de vista do canonista Ed Peters, de que eu trato aqui, Lawler argumenta a seguir que, apesar da aprovação evidente por parte de Francisco de uma leitura heterodoxa da AL como a única interpretação correcta, “o Código de Direito Canónico (especificamente o Cânone 915) exige que os padres recusem a Sagrada Comunhão aos Católicos nessas circunstâncias. Ninguém disputa a autoridade do Papa Francisco para mudar o Direito Canónico, mas ele não mudou [ênfase sua] o Cânone 915, que, portanto, continua em força, com a sua própria ‘autoridade magisterial.’”

Tal como Peters, portanto, Lawler simplesmente parte do princípio de que, desde que Francisco não “mude o Direito Canónico” expressamente “anulando” o Cânone 915, os divorciados e “recasados” continuam impedidos de receber a Sagrada Comunhão sem emendarem a vida. Mas o Papa Francisco não pode simplesmente “mudar o Direito Canónico” neste caso, porque, como João Paulo II insistia, o Cânone 915 está enraizado na Lei Divina, pelo que não é sujeito a mudança.

Lawler conclui com a seguinte argumentação:

“O Pontífice Romano pode falar com autoridade em questões de fé e de moral, mas não pode invalidar as leis da lógica. Na sua carta aos Bispos argentinos, aplaudindo a sua compreensão da sua carta apostólica, o Papa Francisco declarou: ‘Não há outras interpretações.’ Mas  outras interpretações. Alguns Bispos dizem que a Amoris Laetitia mantém a doutrina tradicional da Igreja; outros dizem que o documento altera essas doutrinas. Estas interpretações são incompatíveis. O documento dos Bispos argentinos, assim como a exortação apostólica do Papa, deixa por responder questões cruciais. Até essas questões serem claramente respondidas, não se consegue muito pretendendo que a confusão reinante tem ‘autoridade magisterial”.

Ora tenham paciência! Mas agora Lawler — contradizendo a linha “normalista” do costume sobre a autoridade papal — parece estar a pôr alguns Bispos contra o Papa Francisco, porque eles rejeitam aquilo que Francisco afirma ser a única interpretação correcta da AL, interpretação essa que ele agora declara “oficialmente” tratar-se de “Magisterium autêntico.” Mas como é que alguns Bispospodem rejeitar o “Magisterium autêntico”, se ele realmente for o Magisteriumautêntico?

Os argumentos de Lawler não passam de uma manobra para evitar a questão real: que o Papa Francisco pronunciou uma doutrina falsa que está a tentar apresentar como “Magisterium autêntico”, dando-lhe falsamente essa designação. Não se trata apenas de uma “confusão” ou de um conflito de interpretações. Francisco foi perfeitamente claro: o que ele quer é impor o erro à Santa Igreja — se tal for possível.  E Lawler não faz nenhum bem à Igreja fingindo que não é assim. E a sua posição neste assunto ainda é mais enigmática, se considerarmos o subtítulo do seu próximo livro: “Como o Papa Francisco está a enganar o seu rebanho”.




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