Perspectivas sobre Fátima

Milagre? Que milagre?

por Christopher A. Ferrara
22 de Dezembro de 2017

Na campanha para canonizar todos os Papas ligados ao desastroso Concílio Vaticano II, só Paulo VI, que viveu para arrepender-se de o “fumo de Satanás” ter entrado na Igreja, faltava ainda ser declarado santo. Podia-se pensar que o Papa que presidiu ao repentino e catastrófico colapso da fé e disciplina na Igreja, na sequência das “reformas” litúrgicas e outras que ele aprovou improvidentemente, para depois torcer as mãos e chorar por causa dos resultados ruinosos, seria um candidato muito improvável para a santidade.

Mas a “fábrica de santos” recentemente montada pelo Vaticano trabalha bem. Foi anunciada a notícia de que foi atribuído um “milagre” à intercessão de Paulo VI. Aqui está ele, tal como foi relatado por Inside the Vatican:

“[Os] teólogos da Congregação do Vaticano para as Causas dos Santos reconheceram um milagre atribuído à intercessão do Papa Montini, depois de ter sido dada uma primeira luz verde pela consulta médica da própria Congregação do Vaticano... O milagre reporta-se ao nascimento de uma menina de Verona chamada Amanda, que em 2014 sobreviveu durante meses, apesar do facto de a placenta ter descolado... Subsequentemente, nasceu uma criança de boa saúde.”

Em poucas palavras: Isto é uma brincadeira? O chamado milagre é que o bebé sobreviveu a um descolamento prematuro da placenta e nasceu sem defeitos. Mas isto acontece muito frequentemente nos casos de descolamento prematuro da placenta, como se veria num estudo da situação, por mínimo que fosse. Como explica a Clínica Mayo, o descolamento prematuro da placenta, que “geralmente ocorre no último trimestre da gravidez,” pode pôr em risco a vida e saúde do bebé através da perda de oxigénio e nutrientes, como também a vida da mãe, mas não resulta necessariamente em morte fetal ou anomalias congénitas. É um grave factor de risco, mas não é uma causa certa de morte ou deformidade. Como outra fonte explica:

“Bebés nascidos de mães que experimentam um descolamento prematuro da placenta estão em maior risco para algumas complicações relacionadas com a gravidez. Estas incluem:

• dificuldade no crescimento a uma taxa normal;
• nascimento prematuro, ou nascimento que ocorre antes das 37 semanas de gravidez;
• nado-morto.

Se o descolamento prematuro da placenta ocorre depois de 37 semanas de gravidez, o bebé tem menos probabilidades de ter problemas de saúde do que bebés nascidos numa gestação anterior.”

O alegado milagre não constitui a cura inexplicável de uma doença ou deformidade fetal existente, nem uma cura do próprio descolamento da placenta; é simplesmente declarar que o que poderia ter acontecido ao bebé naquela situação não aconteceu. É muito conveniente o facto de um tal “milagre” ser impossível de provar ou refutar, porque ninguém sabe se o bebé teria nascido saudável doutra maneira. Isto torna a pretensão de um milagre não-falsificável e portanto puramente gratuita.

Isto é ridículo. Consideremos, para comparação, a profusão de milagres que apoiaram a canonização do Papa S. Pio X, muitos dos quais foram realizados durante a sua vida, como está aqui relatado, incluindo a cura instantânea de tumores e a substituição de osso que faltava.

A opinião comum dos teólogos é que os decretos papais de canonização são infalíveis, embora a Igreja nunca tenha definido a opinião como dogma católico ou ensinado definitivamente se uma canonização significa algo mais do que um dado candidato ter entrado na beatitude (tirando a santidade e virtude heróica nesta vida). Mas e se o Papa decide com base num milagre que não é mesmo um milagre? E se o processo de canonização for comprometido por motivos ideológicos ou outros, que levam os promotores da causa a esticar as provas de modo a encaixarem-se numa decisão pré-concebida de canonizar, seja de que maneira for?

Não tenho respostas para estas perguntas, mas elas são certamente válidas e merecem um estudo teológico mais aprofundado. Entretanto, parecemos estar a enfrentar a possibilidade de que um Papa que, mesmo que atingisse a Visão Beatífica, presidiu ao que ele próprio chamou a “auto-demolição” da Igreja — um desastre sem precedentes na história da Igreja — e que apesar disso será apresentado ao mundo católico como modelo de santidade e virtude heróica. Mais outro sinal da grande confusão eclesial predita no Terceiro Segredo de Fátima.