Perspectivas sobre Fátima

Denunciando o Engano do "Discernimento"

por Christopher A. Ferrara
20 de Março de 2017

Nesta palestra dirigida aos participantes de um curso no “fórum interno” do Vaticano, o Papa Bergoglio promoveu, em Teologia Moral, a novidade que ele tentara introduzir na vida da Igreja por via do já infame Capítulo VIII da Amoris Laetitia (AL): o “discernimento”.

Mas o que é exatamente “discernimento”?  Trata-se, pura e simplesmente, de uma palavra de código para a aplicação da ética situacional no confessionário, no caso de adúlteros públicos que vivem em “segundos casamentos” de modo a que eles possam receber a Sagrada Comunhão sem terem de acabar com as suas relações adulterinas. 

Por outras palavras: o discernimento é um pretexto. Se tal afirmação parecer excessiva, considere-se a própria explicação que o Papa Bergoglio deu da sua novidade, durante a palestra cujo link vai acima:

“O discernimento torna-nos sempre capazes de distinguir, de não confundir, e de nunca ‘pintar todos com a mesma cor.’ O discernimento educa a vista e o coração, tornando possível essa delicadeza de espírito que é tão necessária diante de alguém que nos abre o santuário da sua consciência para receber luz, paz e misericórdia.

“O discernimento também é necessário porque quem se aproxima do confessionário pode vir das situações mais díspares; pode também ter perturbações espirituais, cuja natureza tem de ser sujeita a cuidadoso discernimento, tomando em consideração todas as circunstâncias existenciais, eclesiais, naturais e sobrenaturais.”

O facto de este conselho aos confessores ser inviável e mesmo um disparate imoral é algo que deveria ser visível após um momento de reflexão. Suponha-se, por exemplo, que os penitentes na diocese X sentem-se culpados de adultério porque puseram de lado as suas mulheres e casaram com outras, e que vão confessar os seus pecados a um Padre da sua paróquia. Teremos mesmo de acreditar que, em todos e cada um destes casos, o Padre faz, como se requer, um interrogatório de todas as circunstâncias existenciais, eclesiais, naturais e sobrenaturais” em torno da decisão que cada penitente tomou de iniciar e permanecer numa união adulterina?

Mesmo que fosse viável para a própria vida da paróquia — e é claro que não o é! — um exame tão brutalmente intrusivo a cada penitente anónimo que vem confessar-se de adultério: qual seria o propósito de tal exercício? Esperam que nós acreditemos que o Padre que faz este interrogatório a cada penitente esteja em condições de lhe dar imediatamente um veredicto de “inocente” de um pecado mortal, com base em diversas “situações díspares” — isto é, que o Padre pratique algum tipo de ética situacional?  Nenhum Padre tem essa autoridade. Só Deus conhece a culpa subjetiva de cada alma, e esse julgamento pertence-Lhe a Ele e a mais ninguém, e não a um Padre que faz uma estimativa pessoal sobre a culpabilidade.

E o que aconteceu ao famoso “Quem sou eu para julgar?” Na verdade, quem é o Padre, confrontado com a confissão de um pecado objetivo de adultério, para julgar o estado subjetivo da alma do penitente com base em certos dados externos? (O Padre Pio tinha a fama e o dom de ler as almas; mas nem ele teria absolvido um adúltero objetivo. O seu dom dirigia-se antes a detetar o pecado, não a desculpá-lo.)

No seu importante comentário sobre os “Cinco problemas graves do Capítulo VIII da Amoris Laetitia”, o teólogo moral E. Christian Brugger focaliza-se no carácter pernicioso deste aspeto do “discernimento.” Escreve ele:

Mas se não devemos — como, de facto, nem sequer podemos — fazer um julgamento de condenação do estado da alma de outra pessoa, então também não devemos nem podemos fazer um julgamento de absolvição. No entanto, o Capítulo VIII implica que os Padres podem ter toda a certeza de que uma pessoa não tem culpa subjetiva e que pode assim estar livre para participar nos Sacramentos. O n.º 299 até se refere aos divorciados e recasados pelo civil como ‘membros vivos’ da Igreja. Ora, a compreensão comum da expressão ‘membro vivo’ é a de uma pessoa que é batizada e está em estado de graça.

Mas como poderá um Padre concluir que essas pessoas estão em estado de graça sem as julgar? O Papa Francisco insiste, e com toda a razão, que nós não devemos julgar. Mas o julgamento não está só em condenar; também significa absolver.  A presunção aqui, como em todo o capítulo, é que os Padres podem efetivamente fazer um julgamento de absolvição sobre as consciências, de modo a que as pessoas em uniões irregulares possam ir para a frente.

 “Mas se não podemos nem devemos julgar as almas dos outros, também não os podemos condenar dizendo que são certamente culpados de pecado mortal, nem podemos absolvê-los, dizendo que não são subjetivamente culpados na escolha dessa matéria grave. Não podemos julgar.”

Então, o que é que um Padre deve fazer? Deve fazer aquilo que os Padres fizeram sempre no confessionário — pelo menos até o Papa Bergoglio ter chegado a insistir na sua novidade do “discernimento”: deve ocupar-se do pecado objetivo e deixar para Deus o julgamento da culpa subjetiva.  Brugger, que ensina Teologia Moral a futuros Padres, explica assim:

“Se os Padres não podem julgar as almas, o que hão-de fazer? Devem aceitar a avaliação que uma pessoa faz da sua própria alma. Se os Padres notam indicações de culpabilidade mitigada, devem ajudar mansamente o penitente a ver esses fatores, e devem informá-lo a seguir, com toda a caridade, o ensinamento mais amplo de Jesus sobre o Matrimónio (isto é, devem empreender-se na formação da consciência do penitente).

“[O] Padre deve, portanto, apurar se a pessoa está decidida a viver de acordo com os ensinamentos de Jesus, tal como são compreendidos pela Igreja Católica; se essa pessoa disser ‘não’, ou ‘não posso’, o Padre dirá: ‘Bem, não posso dizer-lhe se está em pecado grave por se recusar a aceitar os ensinamentos da Igreja, porque eu não posso julgar a sua alma. Mas mesmo que esteja verdadeiramente em boa fé, não posso julgar se pode receber devidamente a Sagrada Eucaristia, porque não posso saber isso, e se lhe disser isso posso estar a encorajá-lo a racionalizar o pecado mortal continuado, o que resultaria na sua condenação eterna.’”

Mas de qualquer maneira, como se vê acima, o interrogatório exaustivo dos penitentes que o “discernimento” parece querer utilizar, não irá acontecer, porque é impraticável e até mesmo uma invasão inapropriada da privacidade de alguém que confia no anonimato e na circunspeção quando se aproxima do Padre para confessar as suas culpas. E se o penitente começasse por pensar que não é culpado de adultério, não estaria no Confessionário para contar o seu “segundo casamento” adulterino.

As implicações, portanto, são espantosas: o “discernimento” não passa de um disfarce verbal daquilo que realmente é: uma autorização desastrosa para os confessores ajudarem as pessoas objetivamente culpadas de adultério a racionalizarem o seu pecado mortal, para poderem ser “absolvidas” e ser-lhes assim permitido que recebam a Sagrada Comunhão enquanto continuam a cometer adultério.

Nunca jamais um Papa ligou o seu nome a um desvio tão radical dos ensinamentos constantes da Igreja e da sua prática intrinsecamente relacionada. O engano do “discernimento” pertence claramente àquela situação sobre a qual a Irmã Lúcia avisou o Cardinal Caffarra: “[A] batalha final entre o Senhor e o reinado de Satanás travar-se-á sobre o Casamento e a Família.”

-Nossa Senhora do Rosário de Fátima, vinde trazer a Paz à Vossa Igreja, que está a ser atacada por todos os lados!