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Documentação: Cruzada 70: -Deixem-nos ouvir a testemunha, pelo amor de Deus!

-Deixem-nos ouvir a testemunha, pelo amor de Deus!

          Se não há nada a esconder com respeito à Mensagem de Fátima, porque é que a única (e última) testemunha ocular das revelações de Fátima nunca é autorizada a falar pessoalmente aos fiéis? E por que razão a recente entrevista de duas horas com a Irmã Lúcia – realizada em segredo e da qual não foi disponibilizada qualquer transcrição – contém apenas 44 palavras da vidente sobre a Consagração da Rússia e a revelação do Terceiro Segredo?

Pelo Dr. Christopher A. Ferrara


      Já muito se tem escrito sobre a última entrevista da Irmã Lúcia, realizada em segredo dentro dos muros do Convento de Coimbra. A entrevista foi conduzida, a 17 de Novembro de 2001, pelo Arcebispo D. Tarcisio Bertone (Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé), mas – por qualquer razão que desconhecemos – o seu conteúdo manteve-se em segredo durante mais de um mês, até que a 21 de Dezembro de 2001 o Osservatore Romano publicou (na sua edição italiana) um breve comunicado de Mons. Bertone sobre essa entrevista, com o título "Encontro de Sua Excelência Mons. Tarcisio Bertone com a Irmã Maria Lúcia de Jesus e do Imaculado Coração". A 9 de Janeiro de 2002 saía a público, na edição inglesa do Osservatore Romano, a tradução dessa entrevista.

       A essência do comunicado é, segundo Bertone, ter a Irmã Lúcia dito que a consagração do mundo feita em 1984 satisfaz o pedido da consagração da Rússia, e que "tudo foi publicado; já não há mais nada secreto". Uma tal afirmação, oficial, contradiz tudo o que a Irmã Lúcia tem dito ao longo de quase setenta anos. Esta declaração é apresentada como sendo a resposta da Irmã Lúcia a uma pergunta sobre o Terceiro Segredo – pergunta essa que, por muito estranho que pareça, não é dada a público.

      Quando qualquer jornal (ou revista) publica uma entrevista de uma pessoa importante, o que o leitor espera exactamente encontrar é uma série de perguntas completas, seguida de outras tantas respostas completas, de modo a poder saber claramente – e no seu pleno contexto – aquilo que o entrevistado (ou, neste caso, a entrevistada) tinha para dizer pelas suas próprias palavras. Não foi assim neste caso: embora sejamos informados de que Bertone e a Irmã Lúcia conversaram durante "mais de duas horas", de toda a conversa só é dado a público um resumo (do próprio Bertone), apenas ‘salpicado’ de algumas palavras que são atribuídas à Irmã Lúcia. Não foi realizada qualquer transcrição, gravação sonora ou em vídeo daquela sessão de duas horas. E na verdade, como eu me proponho aqui demonstrar, daquilo que se afirma ter dito a Irmã Lúcia, só uns escassos 10% têm a ver com a alegada finalidade da entrevista – que não serviu senão para reacender contínuas dúvidas no espírito de milhões de Católicos quanto à Consagração da Rússia e quanto à totalidade da revelação do Terceiro Segredo, por parte do Vaticano.

Um comportamento suspeito

      Suponho que já deveríamos estar acostumados a irregularidades suspeitas quanto ao modo como o aparelho de estado do Vaticano trata a Irmã Lúcia, e esta "entrevista" – revelada com atraso e elíptica – não é excepção. O comunicado de Bertone demonstra que a Irmã Lúcia continua a ser tratada como se estivesse incluída no Programa Federal de Protecção às Testemunhas (vigente nos Estados Unidos). É certo que se trata de uma freira de clausura. Mas uma entrevista é uma entrevista, e duas horas a falar são duas horas a falar! Então onde está a entrevista, e o que aconteceu às duas horas de conversa? E como se poderá harmonizar este curioso substituto de uma entrevista com a afirmação de que a Irmã Lúcia já revelou tudo o que havia a dizer sobre a Mensagem de Fátima? Ora, se ela já contou tudo o que sabe, então não há nada a esconder. E se não há nada a esconder, por que razão não se publica tudo o que lhe foi perguntado e tudo o que ela respondeu naquele espaço de duas horas? Ou porque não deixar simplesmente que a Irmã Lúcia fale ao mundo, livremente e o tempo que quiser, dissipando todas as dúvidas que possam existir?

      No entanto, apesar da publicação, a 26 de Junho de 2000, do comentário A Mensagem de Fátima da autoria do Cardeal Joseph Ratzinger e do Arcebispo Bertone – documento que nos garante que a Rússia foi devidamente consagrada e que todos os eventos contidos no Terceiro Segredo já "pertencem ao passado" –, a Irmã Lúcia continua ainda afastada dos microfones e de testemunhas que sejam neutras. Ela esteve completamente invisível durante a revelação Bertone/Ratzinger da visão contida no Terceiro Segredo, e perante a publicação do seu Comentário. E continua invisível ainda hoje, mesmo se ( -Vá! Podem dizer em coro!…) "Fátima pertence ao passado".

A primeira (e evidente) falsidade

      Passarei a referir resumidamente os vários pontos da "entrevista" de Novembro último – incluindo, na sua grande totalidade, as quarenta e quatro palavras atribuídas à própria Irmã Lúcia acerca dos assuntos em controvérsia, durante as alegadas duas horas de conversação. Antes, porém, quero fazer notar que o comunicado de Bertone põe em causa, quase de imediato, a sua própria credibilidade, com a seguinte asserção que carece de qualquer referência probatória baseada em palavras da Irmã Lúcia: "Continuando a discutir o problema da terceira parte do segredo de Fátima, ela [a Irmã Lúcia] disse que leu atentamente e meditou no opúsculo publicado pela Congregação para a Doutrina da Fé [isto é, A Mensagem de Fátima], e confirma tudo o que aí se diz".

      Tudo, como? Toda e qualquer alegação? Cada palavra? Nesse caso – para começar – Bertone pretendia fazer-nos acreditar que

  • A Irmã Lúcia "confirma" a alegação do Comentário segundo a qual a visão contida no Terceiro Segredo incorpora imagens que a Irmã Lúcia "pode ter visto em livros de piedade", além das suas "intuições de Fé" pessoais.
  • A Irmã Lúcia "confirma" os elogios que o Cardeal Ratzinger fez do Jesuíta progressista Edouard Dhanis, como "eminente conhecedor" de Fátima, embora Dhanis tenha desclassificado como sendo "invenções inconscientes" todos os aspectos proféticos da Mensagem de Fátima – desde a visão do Inferno à predição da Segunda Guerra Mundial, e até à Consagração e conversão da Rússia. (Estes assuntos serão discutidos adiante com mais profundidade).
  • A Irmã Lúcia "confirma", em suma, que ela própria não passa de uma sincera e piedosa impostora que mais não fez do que imaginar que a Virgem Maria veio pedir a Consagração e a conversão da Rússia – o que torna absolutamente correcto que o Comentário tenha tratado estes elementos-chave da Mensagem de Fátima como se não existissem.

       Observemos agora tudo isto com sensatez. Quando um funcionário do Vaticano, seja qual for o seu estatuto, vem declarar à saída da reclusão de um convento que uma freira de clausura, de 94 anos, "confirma tudo" o que está num documento de quarenta páginas – de que esse funcionário do Vaticano é co-autor –, qualquer espírito lúcido espera algo mais acerca da maneira como é feita tal corroboração. E mais ainda se esse documento de quarenta páginas sugere, embora polidamente, que a religiosa em questão é uma piedosa fraude.

       Basta este fundamento, apenas, para podermos concluir que esta última entrevista secreta da Irmã Lúcia é mais uma tentativa de manipular e explorar uma testemunha, prisioneira, a quem ainda é devida a autorização para se dirigir aos Fiéis à sua vontade, usando as suas próprias expressões pessoais – e sem que estas sejam ‘filtradas’. Mas não; a última vidente de Fátima continua sujeita a entrevistas à porta fechada, durante as quais está rodeada de manipuladores que vêm depois relatar o seu "testemunho" parcelarmente e aos bocados: uma resposta sem a pergunta, uma pergunta sem a resposta. E agora pedem-nos para acreditar que a Irmã Lúcia concorda com "tudo" aquilo que consta em quarenta páginas de um "comentário" neo-modernista que – tal como até o Los Angeles Times pôde verificar – "demoliu com luva branca o culto de Fátima"? Não, obrigado.

      Embora se vá tornando já muito claro que esta "entrevista" é altamente suspeita, mantém-se ainda a necessidade de o demonstrar mais amplamente, para que conste em registo histórico. Assim, e em primeiro lugar, impõe-se – como fundamental – rever o anteriormente sucedido.

A dúvida cresce entre os Fiéis

      Como já fiz notar, esta última entrevista foi expressamente orientada para esmagar nos Fiéis uma dúvida crescente sobre a recente e descarada campanha do Vaticano para empurrar a Mensagem de Fátima para a vala comum da História. Como o comunicado de Bertone admite:

       Ainda não há muitos meses, precisamente a seguir ao triste acontecimento que foi o ataque terrorista de 11 de Setembro [nos Estados Unidos], em jornais tanto estrangeiros como italianos têm aparecido artigos sobre presumíveis novas revelações da Irmã Lúcia, notícias sobre cartas a avisar o Soberano Pontífice, reinterpretações apocalípticas da Mensagem de Fátima. Mais ainda: foi dado grande destaque à suspeição de que a Santa Sé não teria publicado o texto integral da terceira parte do ‘Segredo’, e ao facto de alguns movimentos "fatimistas" continuarem a repetir a acusação de que o Santo Padre ainda não consagrou a Rússia ao Imaculado Coração de Maria. Por esta razão… foi considerado necessário organizar um encontro com a Irmã Lúcia.

      Com efeito, o generalizado cepticismo sobre a revelação, pelo Vaticano, da totalidade do Terceiro Segredo veio à superfície nos principais órgãos de comunicação social católicos por volta de Maio de 2001, quando a Madre Angelica, voz de milhões de pessoas, declarou num programa televisivo em directo:

      Com respeito ao Segredo, acontece que eu sou uma daquelas pessoas que pensa que não nos foi revelado na sua totalidade. Já lhes digo! Claro que cada um tem o direito à sua própria opinião, não é, Senhor Padre? Pois esta é a minha opinião. É que eu acho que [o Terceiro Segredo] é assustador. E penso que a Santa Sé não iria anunciar qualquer coisa de que não há a certeza que aconteça, mas que talvez vá acontecer. Então, o que fará [a Santa Sé] se tal não se realizar? O que eu quero dizer é que a Santa Sé não possui, em si mesma, os meios que lhe permitam fazer profecias.

O verdadeiro Segredo de Fátima
não pode continuar sepultado

      E foi então, a 26 de Outubro de 2001, que a história "rebentou", como dizem os repórteres, quando o serviço noticioso Inside the Vatican lançou um artigo intitulado: "O Segredo de Fátima. Há mais a esperar?". Dizia o artigo que: "Notícias recém-chegadas informam que a Irmã Lúcia dos Santos, a última vidente de Fátima ainda viva, já há algumas semanas enviou ao Papa João Paulo II uma carta alegadamente avisando-o de que a sua vida corre perigo. Segundo fontes do Vaticano, essa carta que afirma que os eventos referidos no ‘Terceiro Segredo’ de Fátima ainda estão para acontecer, foi entregue a João Paulo II algum tempo depois do 11 de Setembro, pelo Bispo emérito [aposentado] de Fátima, D. Alberto Cosme do Amaral."

      Perguntado acerca da carta, o actual Bispo de Fátima, D. Serafim Ferreira de Sousa, "não negou que a Irmã Lúcia tivesse enviado uma carta ao Santo Padre", mas afirmou [traçando uma distinção verdadeiramente jesuítica] que ‘nenhuma carta da vidente exprime receio pela vida do Papa’".

       O Inside the Vatican revela também que "[Essas] fontes sugeriram ainda que a carta da Irmã Lúcia encoraja o Papa a revelar totalmente o Terceiro Segredo", e que a mesma carta "contém, segundo se diz, este aviso: ‘Em breve haverá uma grande convulsão e um grande castigo’".

      Impõe-se de imediato recordar aqui que, na entrevista de Bertone, a Irmã Lúcia não foi questionada sobre alguma carta urgente que tivesse enviado ao Papa e não negou ter enviado uma tal carta por intermédio do Bispo emérito de Fátima. Perante uma omissão de tal modo reveladora, sentimo-nos habilitados a concluir que essa carta realmente existe e que, só pelo facto de existir, mina ainda mais profundamente a credibilidade da "entrevista" – como irei demonstrar de seguida, demarcando-a como: Uma omissão por demais reveladora nº 1.

      Ora o artigo do Inside the Vatican refere ainda outro encontro secreto com a Irmã Lúcia atrás dos muros do convento – só que este não segue a linha Bertone/Ratzinger. Segundo o Inside the Vatican, o Padre Luigi Bianchi, Pároco diocesano italiano, "afirma ter- -se encontrado, na passada semana, com a Irmã Lúcia dos Santos, na clausura do seu Convento das Carmelitas em Coimbra, Portugal." Fazendo-se eco das suspeições da Madre Angelica, o Padre Bianchi "especulou sobre a possibilidade de o Vaticano não ter revelado a totalidade do Segredo ‘para evitar criar pânico e ansiedade na população: para não assustar as pessoas’".

      Quanto à "interpretação" do Segredo por Bertone/Ratzinger – manifestamente dúbia, aliás – como tendo sido uma profecia do atentado contra a vida de João Paulo II, Bianchi afirmou que "A Mensagem não fala apenas de um atentado contra o Sumo Pontífice; fala, sim, de ‘um Bispo vestido de branco’ que caminha por entre ruínas e corpos de pessoas martirizadas… Isto significa que o Santo Padre tem muito que sofrer, que várias nações irão desaparecer, que muita gente morrerá, e que devemos defender o Ocidente de vir a ser islamizado. É o que está a acontecer nos nossos dias".

      O Inside the Vatican teve o cuidado de referir – tal como o The Fatima Crusader – que à Irmã Lúcia "não lhe é permitido falar com ninguém sem autorização prévia do Vaticano…". Nesta ordem de ideias, o Inside the Vatican para não se comprometer "jogou com um pau de dois bicos", ao afirmar que "não está automaticamente esclarecido se Bianchi recebeu tal aprovação ou se contornou a necessidade de a obter, ou, sequer, se ele realmente se encontrou com a Irmã Lúcia, como afirma.". Seja como for, ninguém nega – nem a própria Irmã Lúcia – que houve de facto um encontro com o Padre Bianchi. E, no entanto, a Irmã Lúcia não foi inquirida sobre o encontro com o Padre Bianchi durante a alegada conversação de duas horas mantida com Bertone. Esta é a omissão por demais reveladora nº 2.

      Que pelo menos algumas fontes do Inside the Vatican se encontram no interior da Cúria é-nos dado a entender pela resposta do Cardeal Ratzinger – aí citada – aos posteriores desenvolvimentos: Ratzinger terá dito que os "recentes rumores acerca de uma carta não são mais que a continuação de ‘uma velha polémica alimentada por certas pessoas de credibilidade duvidosa’, com o objectivo de ‘desestabilizar o equilíbrio interno da Cúria romana e de perturbar o povo de Deus’". Note-se, contudo, que nem o próprio Ratzinger nega a existência dessa carta – acerca da qual a Irmã Lúcia não foi sequer inquirida durante a entrevista de Bertone.

      Aliás, a observação de Ratzinger é muito reveladora. Como poderia o "equilíbrio interno da Cúria romana" ser desestabilizado por pessoas de "credibilidade duvidosa"? Se a credibilidade delas é assim tão duvidosa, a Cúria romana dificilmente poderia ser desestabilizada por aquilo que dissessem. E, afinal, quem são essas pessoas de "credibilidade duvidosa"? A peça do Inside the Vatican sugere que o Cardeal Ratzinger poderia estar a referir-se ao Padre Nicholas Gruner. E que pensar da Madre Angelica? E do Padre Bianchi? E que pensar do próprio Inside the Vatican, cujo editor, Robert Moynihan, é indubitavelmente uma criatura do aparelho de estado do Vaticano, como o próprio título da sua revista sugere? E que pensar daqueles milhões de Católicos que arvoram uma bem fundada suspeita de que Bertone e Ratzinger não estão a ser inteiramente sinceros quando afirmam que as profecias da Mensagem de Fátima – incluindo o Terceiro Segredo – "pertencem ao passado" e que, portanto, o seu aviso sobre tremendos castigos para a Igreja e para o mundo não nos devem preocupar mais? Que Católico consciente pode acreditar em tal coisa, dado o perigoso estado do mundo nos dias de hoje?

      Em suma, e como o jornalista católico Mark Fellows tão habilmente apresentou (no seu artigo a páginas 3 do presente número da revista The Fatima Crusader, nº 70), "a cortiça continua a boiar, oscilando à tona da água". Com respeito ao Terceiro Segredo, milhões de Católicos continuam a pensar no que terá acontecido às palavras que se seguem à frase- -chave. "Em Portugal conservar-se-á sempre o dogma da Fé, etc." – frase que é parte integrante do texto da Mensagem de Fátima tal como vem registada na quarta memória da Irmã Lúcia. Ora este "etc." estava no próprio manuscrito, pelo punho e letra da vidente, e só podia indicar as palavras que Nossa Senhora de Fátima disse a seguir, pois a Rainha do Céu não iria dizer "etc". Todos os estudiosos de Fátima respeitáveis viram nesta frase o começo do Terceiro Segredo, porque ela situa-se claramente fora do contexto das primeiras duas partes da Mensagem de Fátima que nada dizem sobre a conservação do dogma. E a implicação patente na frase é que em outros lugares – em muitos outros lugares – o dogma da Fé não se conservará.

      Até o próprio Comentário publica esta frase-chave (que só muito dificilmente poderia evitar) – mas, curiosamente, retira-a do texto integral da Mensagem para a ‘sepultar’ numa nota de rodapé, fugindo deste modo a qualquer discussão sobre ela. Mas a pergunta não se desvaneceu: O que aconteceu às palavras da Virgem Maria que falta conhecer? Quem espera que acreditemos que a Mensagem de Fátima termina no meio de um pensamento? A entrevista secreta de Bertone nunca toca no assunto das palavras que faltam, mesmo sabendo que milhões de Católicos se sentem perturbados com esse facto. É esta a omissão por demais reveladora nº 3.

      De cada vez, o aparelho de estado do Vaticano sentiu que tinha de fazer qualquer coisa para pôr um travão à especulação crescente sobre a existência de um encobrimento, antes de o escândalo transbordar e se tornar imparável. A afirmação de Ratzinger acerca de uma Cúria desestabilizada indica-nos que a linha do ‘Partido Anti-Fátima’ encontra, agora, resistência no interior do próprio aparelho do Vaticano, talvez por ver a crescente desestabilização que grassa por todo o mundo – o que dificilmente se enquadra na noção de que as profecias de Fátima já deixaram de nos dizer respeito.

      A entrevista de Bertone teve ainda por alvo o Padre Nicholas Gruner, talvez o mais proeminente representante desse larguíssimo número de pessoas na Igreja que continuam a acreditar que a saga de Fátima está longe de ter terminado. Totalmente à parte do justificado cepticismo sobre se nos foi dado a conhecer (ou não) todo o Terceiro Segredo, milhões de Católicos continuam agarrados à asserção – que a razão eminentemente confirma – de que é indispensável que a Consagração da Rússia mencione efectivamente a Rússia. Que a Consagração do Mundo não "substituiu" a da Rússia, fica demonstrado pela acelerada decomposição espiritual, moral e material das nações que tem ocorrido desde a cerimónia de 1984 – da qual, conforme recentemente soube, foi deliberadamente excluída qualquer menção à Rússia, a favor do ecumenismo e da diplomacia do Vaticano.

      Que a "Lúcia de Bertone" (como John Vennari tão lucidamente lhe chama; veja-se o seu artigo na página 12 desta revista – nº 70) contradiz tudo o que a Irmã Lúcia tem vindo a dizer ao longo de setenta anos sobre os requisitos de uma válida Consagração da Rússia – primeiramente e antes de tudo tendo a Rússia de ser mencionada – foi já abundantemente documentado muitas vezes nesta publicação; e ainda, o que é bastante revelador, nas páginas de L’Osservatore Romano, jornal oficial do Papa, onde a Irmã Lúcia negou energicamente que alguma vez a Virgem Maria tivesse pedido a Consagração do Mundo em vez da da Rússia. Não tratarei aqui de novo deste assunto.

      Recordando o propósito deste artigo, eu gostaria de examinar essa recente entrevista, tendo bem patente o seguinte pensamento director: a Irmã Lúcia é uma testemunha crucial de um caso importante – na verdade, o caso mais importante na história mundial desde 1917. Se a Irmã Lúcia é uma testemunha credível das aparições de Fátima – e decerto que o é –, temos absoluta certeza que aquilo que está em jogo no Caso de Fátima é nada menos que o destino do elemento humano da Igreja bem como o do mundo inteiro, nos nossos dias. Recordemos alguns dos factos que o demonstram.

      Enquanto o Comentário pretende que nada aconteceu, os Fiéis nunca esquecerão que foi o próprio Deus a autenticar a Mensagem de Fátima operando um milagre público, sem comparação com coisa alguma vista na história da humanidade: o Milagre do Sol, testemunhado por 70.000 pessoas, tanto crentes como não crentes. Nunca antes, na história da salvação, um vidente predisse com meses de antecedência que iria operar-se publicamente um milagre, tendo sido ainda designados um tempo e um lugar precisos. Ora foi isto, exactamente, o que a Irmã Lúcia fez, por vontade expressa do próprio Deus. O Milagre do Sol só poderia ter tido uma finalidade – sem a qual não teria passado de um espectáculo sem um significado de maior – e a finalidade desse Milagre foi a de demonstrar, para além de qualquer dúvida, que o testemunho da Irmã Lúcia sobre a Mensagem de Fátima é profundamente credível. É por isso que toca as raias da blasfémia dizer, como o Comentário insidiosamente sugere, que Deus escolheu uma vidente não-credível cujo testemunho seria um misto de certas coisas que ela realmente viu e ouviu, e de outras por ela inventadas mais tarde – e como poderia alguém distinguir entre umas e outras? Não; o Milagre do Sol confirma a Mensagem de Fátima na sua totalidade, e ainda que essa Mensagem foi transmitida e registada com toda a fidelidade pela vidente (que ainda é viva) a quem Deus não permitiria que andasse a enganar a Igreja ou o mundo.

       A despeito da tentativa do Comentário de "demolir com luva branca o culto de Fátima", devemos admitir doravante o que o Papa João Paulo II já tinha admitido: que a Mensagem de Fátima é absolutamente autêntica e credível, e é uma mensagem profética para o nosso tempo. Devemos, pois, rejeitar em absoluto a tese de Dhanis de que a Mensagem de Fátima é uma clara "invenção inconsciente" – tese que a "entrevista" de Bertone ultrajosamente tentou apresentar como validada pela própria Irmã Lúcia.

      Sendo a Mensagem de Fátima absolutamente autêntica, atente-se no facto de que a Irmã Lúcia é a única testemunha viva das promessas e dos avisos do Céu, os quais – embora o Comentário os ignore por completo – não podem ter para nós uma importância maior do que têm. E, apesar de umas e outros serem bem conhecidos, vou recapitulá-los aqui, por forma a torná-los mais evidentes.

As Promessas:

Se a Rússia for consagrada ao Imaculado Coração,

  • o Imaculado Coração triunfará,
  • a Rússia converter-se-á,
  • muitas almas serão salvas do Inferno (mostrado aos três pastorinhos numa visão aterradora),
  • e será concedido ao mundo algum tempo de Paz.

      Apesar de podermos ter a certeza de que as profecias de Fátima se hão-de cumprir – «Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-Me-á a Rússia que se converterá e será concedido ao Mundo algum tempo de Paz» –, a questão que hoje se nos põe é se o mundo terá primeiro de sofrer todos os castigos da profecia, incluindo o aniquilamento de nações, claramente sugerido por aquela cidade meio destruída, no exterior da qual o Papa é executado na visão do Terceiro Segredo. Foi sobre isto que a Irmã Lúcia avisou o Papa, em carta datada de 12 de Maio de 1982:

      "A terceira parte do segredo refere-se às palavras de Nossa Senhora: ‘Se não, [a Rússia] espalhará os seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer; várias nações serão aniquiladas.’ (13-VII-1917).

       "A terceira parte do Segredo, que tanto ansiais por conhecer, é uma revelação simbólica, que se refere a este trecho da Mensagem, condicionado a se, sim ou não, nós aceitamos ou não o que a Mensagem nos pede: ‘Se atenderem a Meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, etc.’.

      "Porque não temos atendido a este apelo da Mensagem, verificamos que ela se tem cumprido: a Rússia foi invadindo o mundo com os seus erros. E se não vemos ainda o facto consumado do final desta profecia, vemos que para aí caminhamos a passos largos."

      O Comentário publicou estas palavras da Irmã Lúcia, embora ignorando completamente a sua importância.

Os Avisos:

Se a Rússia não for consagrada ao Imaculado Coração,

  • a Rússia espalhará os seus erros por todo o mundo,
  • promovendo guerras e perseguições contra a Igreja,
  • os bons serão martirizados,
  • o Santo Padre terá muito que sofrer,
  • e várias nações serão aniquiladas.

      Neste ponto, é visível a grande falha de Bertone, não mencionando na sua entrevista nem um só destes avisos enviados do Céu. Pelo contrário, Bertone firmou toda a sua posição – e também o próprio destino do mundo – na sua asserção de que nenhum dos avisos da Mensagem de Fátima tem já qualquer aplicação. Como Bertone declarou no Comentário: "A decisão tomada pelo Santo Padre João Paulo II de tornar pública a terceira parte do «segredo» de Fátima encerra um pedaço de história, marcado por trágicas veleidades humanas de poder e de iniquidade, mas permeada pelo Amor misericordioso de Deus e pela vigilância cuidadosa da Mãe de Jesus e da Igreja".

      Com efeito, chega a ser um desafio à credulidade que um prelado do Vaticano possa dizer uma tal enormidade perante o estado actual do mundo. Além disso, se para pôr fim a tão "trágicas veleidades humanas de poder e de iniquidade" bastava uma conferência de imprensa que desse a público uma visão ambígua de "um Bispo vestido de branco", por que razão esperou o Vaticano cerca de quarenta anos para o fazer?

      Em suma, a Mensagem de Fátima é autêntica e, no ‘Caso Fátima’, a recompensa não podia ser maior: a salvação das almas e a salvaguarda de nações inteiras de virem a ser aniquiladas. E a única testemunha mais importante no ‘Caso Fátima’ é a Irmã Lúcia de Jesus e do Imaculado Coração que actualmente reside no seu convento, em Coimbra.

      Tendo até agora fornecido os anteriores factos que é necessário ter bem presentes, passarei a debruçar-me sobre os factos perturbadores que envolvem a dita entrevista de Bertone: os indicia, como se diz em linguagem jurídica, do carácter não fiável da entrevista. Examinemos, pois, as circunstâncias em que se deu a entrevista, segundo os padrões de credibilidade requeridos, inclusivamente, pelos tribunais civis e ateus para a aceitação das declarações de uma testemunha importante. Não pretendo sugerir que a Irmã Lúcia devesse ser submetida a algo semelhante à indignidade de um julgamento civil; mas apenas que os proponentes deste último "testemunho" da "Irmã Lúcia" sejam confrontados com esses padrões mínimos de credibilidade, se nos pedem que acreditemos nele.

* 1ª circunstância suspeita: Embora a Irmã Lúcia esteja disponível para testemunhar pessoalmente, nunca foi chamada a depor pela parte que controla o acesso à sua pessoa, nomeadamente o Cardeal Joseph Ratzinger.

      O comunicado de Bertone revela que a Irmã Lúcia não poderia sequer falar com o Arcebispo Bertone sem autorização do Cardeal Ratzinger – o que confirma aquilo que The Fatima Crusader tem vindo a afirmar desde há anos e que o artigo acima referido, no Inside the Vatican, igualmente aponta: a ninguém é permitido falar com a Irmã Lúcia, sem autorização do Cardeal. Esta restrição à liberdade de uma testemunha é assaz curiosa, uma vez que essa testemunha, ao que nos dizem, nada mais tem a acrescentar ao que já disse.

      À luz dos padrões mínimos de fiabilidade nos processos civis, as testemunhas são chamadas a depor pessoalmente se estão disponíveis, de modo a que ambas as partes no caso, cujos direitos podem ser afectados por esse testemunho, tenham oportunidade de questionar a testemunha. Se uma das partes exerce controle sobre uma testemunha mas não a apresenta, os juízes de um tribunal civil fazem notar aos júris que podem daí concluir que o depoimento dessa testemunha teria sido desfavorável à parte em questão. Ora isto não é mais do que o senso comum: qualquer das partes em litígio não teria dificuldade alguma em obter uma testemunha favorável, mas já lhe seria provavelmente bem mais difícil apresentar uma que lhe fosse desfavorável [porque só a prejudicaria].

      Ora bem, a Irmã Lúcia está disponível para ser presente "à barra do tribunal da História" no caso de Fátima: não se encontra acamada, entrevada ou de qualquer modo incapacitada de aparecer em público. Bem pelo contrário, o comunicado de Bertone afirma que, à altura da entrevista conduzida em sigilo, a Irmã Lúcia "se encontrava em perfeita forma, lúcida e cheia de vivacidade". Então porque é que esta testemunha, lúcida e cheia de vivacidade, que está disponível para testemunhar, nunca é apresentada pela parte que controla todo o acesso a ela? Porque é que o seu último "testemunho" foi obtido à porta fechada e apresentado, em segunda mão, num comunicado do Arcebispo Bertone?

      O que aconteceria num tribunal civil, se uma das partes oferecesse um relato fragmentado do depoimento de uma testemunha-chave, podendo essa testemunha prestar depoimento prontamente e em pessoa? O júri concluiria de imediato que existia algo que estava a ser escondido. No caso de Fátima, a inferência que pode e deve ser esboçada é a de que a Irmã Lúcia foi afastada "da barra das testemunhas" porque o seu vívido e incontrolável depoimento iria beliscar a posição de Bertone/Ratzinger – segundo a qual Fátima já "pertence ao passado". Se eles pudessem confiar que a Irmã Lúcia viria repetir a explicação oficial do "Partido", então já há muito teria sido trazida a testemunhar, pessoalmente e à sua vontade, perante a Igreja e o mundo. Como assim não é, é Monsenhor Bertone (e não a testemunha) que vem depor.

      Mas, mesmo partindo do princípio que a Irmã Lúcia estava acamada ou de qualquer outro modo incapacitada de testemunhar, as restantes circunstâncias da suposta entrevista não deixariam de levantar suspeitas no espírito de qualquer pessoa que estivesse no perfeito uso da sua razão. Assim, vou prosseguir.

* 2ª circunstância suspeita: A entrevista a esta freira de 94 anos foi conduzida secretamente pelo Arcebispo Bertone, figura de autoridade e com um motivo evidente para manipular a testemunha.

      No contexto do direito civil, presume-se haver uma influência indevida quando alguém, em posição de autoridade ou predomínio sobre uma pessoa muito idosa, obtém dela, nessa condição, um depoimento – tal como um testamento ou uma procuração. Neste caso, Bertone assume-se claramente como parte dominante, com a imponente autoridade de um título do Vaticano, enquanto a Irmã Lúcia, para além de ser muito idosa, é forçada pelos seus votos a submeter-se, em santa obediência, à vontade (e às perguntas) dos seus superiores – pelos quais esteve sempre rodeada durante aquela sessão de duas horas.

       Além do mais, é óbvio que Bertone tinha a intenção de utilizar a "entrevista" para defender a sua própria credibilidade, perante o crescente cepticismo público em relação à linha oficial que defendia que a Mensagem de Fátima já se tinha realizado e que (tal como Bertone o apresenta) a publicação do Comentário sobre a visão do Terceiro Segredo "encerra um pedaço de história, marcado por trágicas veleidades humanas de poder e de iniquidade…" Bertone não podia deixar de se sentir embaraçado com uma crítica ampla ao absurdo da sua afirmação de que o mundo agora está em Paz e de que a Mensagem de Fátima foi gloriosamente cumprida há vinte anos, quando o Papa sobreviveu à tentativa de assassinato de 1981. (Até Paul Harvey, leigo e comentador radiofónico, desprezou o mais abertamente possível a ‘interpretação’ dada por Ratzinger/Bertone acerca do Terceiro Segredo).

       Nestas circunstâncias, Bertone dirigindo a "entrevista" e depois relatando os seus resultados, é como um advogado de acusação que recolhe o relato de uma testemunha-chave para depois, deixando-a fora da Sala do Tribunal, vir prestar depoimento em seu lugar. Objectivamente falando, o Cardeal Bertone seria a última pessoa que devia ter conduzido a entrevista. A Igreja e o mundo têm o direito de ouvir directamente o depoimento desta testemunha vital – em vez de receber relatos vindos de um interrogador parcial com segundas intenções.

* 3ª circunstância suspeita: O Comunicado de Bertone é extremamente breve, ocupando apenas um quarto de página de L’Osservatore Romano. No entanto, esse mesmo comunicado afirma que a entrevista se prolongou "por mais de duas horas."

      De que é que Bertone e a Irmã Lúcia teriam falado durante mais de duas horas, dado que o comunicado pode ser lido na íntegra em menos de dois minutos? Uma palestra de uma hora que eu recentemente fiz exigiu-me uma transcrição de 14 páginas dactilografadas a um espaço; uma entrevista de duas horas teria requerido cerca de 28 páginas ou, aproximadamente, 14 mil palavras.

      No entanto, o comunicado de Bertone referente a uma alegada entrevista de duas horas limita-se a 463 palavras supostamente da boca da Irmã Lúcia. E essas 463 palavras podem ser repartidas do seguinte modo:

165 palavras: Uma transcrição, palavra por palavra, da opinião do Cardeal Ratzinger, no seu Comentário, sobre a frase "O Meu Imaculado Coração triunfará" – de que o Cardeal notoriamente retirou as palavras "Por fim" – frase esta que não se referiria a acontecimentos futuros, mas sim ao fiat de Maria, há 2000 anos, ao consentir ser a Mãe de Deus.

      Então agora pedem-nos que acreditemos que a Irmã Lúcia "confirma" que, quando Nossa Senhora de Fátima predisse quatro eventos futuros – "Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-Me-á a Rússia, que se converterá, e será dado ao mundo algum tempo de Paz." –, estava a referir-se à Anunciação, no ano 1º antes de Cristo?! É claro que a ‘Lúcia de Bertone’ também "confirma" aparentemente a supressão que o Cardeal Ratzinger fez, na profecia de Nossa Senhora, das palavras-chave "Por fim".

      Faço notar que a transcrição, palavra a palavra, do Comentário inclui a citação parentética (pelo Cardeal Ratzinger) do Evangelho de São João, 16:33. Ora bem: ou a Irmã Lúcia desenvolveu aos 94 anos uma memória fotográfica, ou alguém acrescentou tal transcrição – que inclui esta citação parentética das Escrituras – à sua "resposta".

100 palavras: Sobre o significado do coração que a Irmã Lúcia viu na mão esquerda da Virgem durante as aparições em Fátima.

      O comunicado de Bertone informa-nos de que há "um pormenor ainda não publicado" acrescentado pela Irmã Lúcia à Mensagem de Fátima. Isso pode até ser muito interessante; mas o que tem esse pormenor a ver com o assunto de uma entrevista que fez Bertone deslocar-se a Portugal, com base numa tão grande emergência?

69 palavras: A Irmã Lúcia nega as declarações da imprensa segundo as quais ela está "muito preocupada com os acontecimentos recentes" e "já não consegue dormir, ficando a rezar noite e dia".

      Uma vez mais, isto ultrapassa o que é essencial. Mas, seja como for, a ‘Lúcia de Bertone’ dá esta resposta bastante leviana: "Como posso eu rezar durante o dia, se não descansei de noite?" Bem: fica claro que ninguém afirmou que ela não consegue dormir de todo. E a vidente supostamente acrescentou: "Quantas coisas põem na minha boca! Quantas coisas fazem parecer que eu fiz! Eles que leiam o meu livro: nele estão todas as recomendações e os apelos que correspondem aos desejos de Nossa Senhora. Oração e penitência, mais uma grande Fé no Poder de Deus, é que salvarão o mundo".

      O leitor há-de reparar que a ‘Lúcia de Bertone’ nunca nega que está preocupada com os acontecimentos recentes. E quem, no pleno uso da razão, não o estaria? E é bom lembrar de novo que ela nunca é inquirida sobre a carta urgente que dirigiu ao Santo Padre, nem sobre o seu encontro, face a face, com o Padre Bianchi, durante o qual (segundo Bianchi) expressou dúvidas sobre a interpretação de Bertone/Ratzinger do Terceiro Segredo.

"Quiero pôr, ao lado da devoção do Meu Divino Coração, a devoção deste Imaculado Coração".

39 palavras: O efeito que as aparições de Fátima tiveram na vida da Irmã Lúcia.

      O que tem isto a ver com o reiterado propósito da emergência de uma entrevista secreta no próprio convento da vidente? A Irmã Lúcia já tratou exaustivamente deste assunto nas suas volumosas Memórias… Foi então para obter só isto que um funcionário do Vaticano se deslocou a Portugal para um encontro de duas horas?

34 palavras: A Irmã Lúcia nega ter recebido quaisquer novas revelações.

       É realmente muito estranho que, ao mesmo tempo que a ‘Lúcia de Bertone’ nega ter tido qualquer outra revelação do Céu, declare no mesmo comunicado – e contrariamente a todos os seus anteriores testemunhos – que a Consagração do mundo feita em 1984 "foi aceite pelo Céu". (Vejam-se as palavras que lhe são atribuídas na página 49 do presente número da revista The Fatima Cruzader Nº 70). Como saberia ela tal coisa, não havendo quaisquer novas revelações?

12 palavras: A Irmã Lúcia diz que a sua comunidade de Carmelitas rejeitou as fórmulas de súplica que o Apostolado do Padre Gruner está a fazer circular pedindo a Consagração da Rússia.

E isto, então? E a consagração da Rússia? Foi já feita ou não?

Até aqui contámos 419 das 463 palavras atribuídas à Irmã Lúcia, nas citações supostamente feitas palavra a palavra no comunicado. Restam apenas 44 palavras.

As quarenta e quatro palavras da Irmã Lúcia

      É verdade. Por incrível que pareça, o tão apregoado comunicado de Bertone contém apenas quarenta e quatro palavras da "Irmã Lúcia" sobre a Consagração da Rússia e a revelação do Terceiro Segredo – assuntos que, supostamente, levaram Bertone a pôr-se a caminho até ao Convento de Coimbra.

Vejamos como essas quarenta e quatro palavras se distribuem:

9 palavras a respeito (ao que parece) do Terceiro Segredo: "Tudo foi publicado; já não há mais nada secreto".

      A pergunta que levou a esta resposta não nos é facultada. Em vez disso, o comunicado de Bertone declara: "Para aqueles que possam imaginar que alguma parte do Segredo foi ocultada, ela respondeu:…" – seguido das nove palavras acima transcritas.

      "Respondeu" a quê? Sobre o quê, exactamente, foi inquirida a Irmã Lúcia, acerca da revelação pelo Vaticano da visão do Terceiro Segredo? Qual foi o contexto total onde se encaixam pergunta e resposta? E porque não foi Lúcia inquirida sobre a única pergunta sobre que se questionam milhões de pessoas em todo o mundo: -Onde estão as palavras de Nossa Senhora que vêm a seguir à frase "Em Portugal conservar-se-á sempre o dogma da Fé, etc."?

Repare-se que não parece terem sido feitas à Irmã Lúcia quaisquer perguntas em concreto sobre este ponto, tais como:

  • Nossa Senhora disse algumas palavras que expliquem a visão do ‘Bispo vestido de branco’ que aparece no Terceiro Segredo?
  • Ou incluirá o Terceiro Segredo um texto em separado que explique a visão do ‘Bispo vestido de branco’?
  • O que tem a dizer sobre o depoimento de numerosas testemunhas (incluindo o Bispo de Fátima e o Cardeal Ottaviani), de que o Terceiro Segredo foi escrito numa única folha de papel – opondo-se, deste modo, às quatro folhas de papel nas quais estava escrita a visão do ‘Bispo vestido de branco’?

      Todos estes pormenores foram estudadamente suprimidos. Esta é a omissão por demais reveladora nº 4. Nem sequer nos foram dadas a conhecer as palavras da única pergunta que foi feita à vidente.

14 palavras sobre a interpretação Bertone/Ratzinger do Terceiro Segredo: "Isso não é verdade. Eu confirmo totalmente a interpretação [do Terceiro Segredo] feita no ano do Jubileu".

      Com estas palavras, a Irmã Lúcia está supostamente a negar as notícias divulgadas pela imprensa segundo as quais ela teria expressado ao Padre Luigi Bianchi e ao Padre José Santos Valinho as suas dúvidas sobre a interpretação do Terceiro Segredo feita pelo Comentário.

      E espera-se que acreditemos que Lúcia concorda ter sido o Terceiro Segredo plenamente realizado a 13 de Maio de 1981, com a tentativa falhada de assassinato do Papa João Paulo II, embora o mesmo Comentário inclua uma suposta carta da Irmã Lúcia ao Santo Padre, datada de 12 de Maio de 1982 – um ano mais tarde –, na qual ela avisa que "(…) não vemos ainda, como facto consumado, o final desta profecia (…)". Como pode ver-se nesta mesma carta, a Irmã Lúcia não estabelece relação absolutamente nenhuma entre a tentativa de assassinato e o Terceiro Segredo.

      Ainda nesta suposta carta de 1982 dirigida ao Papa, é muito curioso ter a Irmã Lúcia utilizado as palavras "A terceira parte do Segredo que tanto ansiais por conhecer". Porque é que o Papa ‘ansiaria tanto conhecer’ a terceira parte do Segredo, se já tinha o texto em sua posse no Vaticano onde ele estava guardado desde 1957? Porque é que Sua Santidade ‘ansiaria tanto conhecer’ aquilo que, afinal, já tinha lido em 1981 (segundo afirmação de Bertone/Ratzinger) ou ainda mais cedo, em 1978, como o porta-voz da Santa Sé, Joaquín Navarro-Vals, declarou à imprensa portuguesa?

      Também é muito revelador que a expressão "que tanto ansiais por conhecer" tenha sido retirada pelo Vaticano da citação do original português da mesma carta, em todas as versões do Comentário em diversas línguas. A própria versão do Comentário em Língua Portuguesa omite essa frase "que tanto ansiais por conhecer" da reprodução tipográfica portuguesa da carta original. Sem dúvida o aparelho do Vaticano quis evitar um turbilhão de perguntas sobre de que modo estaria o Papa ansioso por conhecer uma coisa que ele já conhecia. Mas na altura em que os repórteres pudessem comparar as suas transcrições com a carta original em Português, já a conferência de imprensa teria terminado – o que inviabilizava que se fizessem outras quaisquer perguntas.

      Parece-me que, de tudo isto, só duas conclusões são possíveis: ou a carta não era realmente dirigida ao Papa ou, então, havia algo mais que fazia parte do Segredo e que o Santo Padre realmente desconhecia à data dessa carta, 12 de Maio de 1982. -Oh, que emaranhada é a teia que começa por uma mentira!

21 palavras sobre a Consagração da Rússia: "Eu já disse que a Consagração desejada por Nossa Senhora foi feita em 1984, e que ela foi aceite pelo Céu."

      Alegadamente, tais palavras foram ditas pela Irmã Lúcia em resposta à pergunta: "O que tem a dizer sobre as persistentes afirmações do Padre Gruner, que anda a recolher assinaturas pedindo ao Papa que consagre finalmente a Rússia ao Imaculado Coração de Maria, coisa que ainda não foi feita?"

      Ora bem: está fora de dúvida que esta mesma testemunha disse repetidamente, em declarações amplamente divulgadas, que as cerimónias de Consagração de 1982 e de 1984 não eram suficientes para honrar o pedido de Nossa Senhora, porque, em nenhuma dessas ocasiões, nem a Rússia fora mencionada nem houve participação do episcopado de todo o mundo. No entanto, segundo a entrevista de Bertone, a vidente mudou o seu testemunho, declarando agora que a cerimónia de Consagração de 1984 "foi aceite pelo Céu".

      Mas é digno de nota que a Irmã Lúcia não é questionada acerca das suas várias declarações anteriores em que ela afirmava o contrário, nem se lhe pede explicação sobre a sua suposta alteração de testemunho. Espera-se, pois, que acreditemos piamente que nada do que ela disse anteriormente tem qualquer peso, e que só quando a vidente fala em segredo com o Arcebispo Bertone é que diz a verdade sobre este assunto.

      Bastante significativo é o facto de a ‘Lúcia de Bertone’ não nos dizer quando, onde ou a quem ela "já disse" que a Consagração de 1984 – por ela anteriormente declarada inaceitável – é agora aceitável. Porquê uma tal imprecisão, quando Bertone tinha agora uma oportunidade única de arrumar este assunto, apresentando um testimunho específico? Porque não lhe pediu ele, por exemplo, que autenticasse (pelo menos) algumas das diversas cartas feitas a computador que, em 1989, começaram misteriosamente a aparecer com a suposta assinatura dela – cartas que vêm afirmar que a Consagração da Rússia se cumpriu em 1984? Esta é a omissão por demais reveladora nº 5.

      E o mais suspeito de tudo é o facto de o Comentário, em si mesmo, assentar inteiramente numa destas estranhas cartas, datada de 8 de Novembro de 1989 (e cujo destinatário não está identificado), como prova de que a Consagração fora já realizada. No entanto, a credibilidade dessa carta esvai-se por si mesma quando afirma que o Papa Paulo VI já tinha consagrado o mundo ao Imaculado Coração de Maria em 1967, durante a sua breve visita a Fátima – consagração que nunca aconteceu, como a Irmã Lúcia bem o sabe, uma vez que foi testemunha de toda essa visita. Porque é que Bertone não fez qualquer tentativa para autenticar esta carta, tão candentemente discutida – e único elemento basilar do Comentário –, aproveitando todo o tempo de uma longa entrevista com a própria (suposta) signatária desse documento? Esta é a omissão por demais reveladora nº 6.

       Portanto, é esta a soma total – quarenta e quatro palavras – daquilo que a Irmã Lúcia terá dito durante uma entrevista de duas horas sobre uma das maiores controvérsias da História da Igreja. E é-nos pedido que aceitemos, como sendo o final da história de Fátima, estas 44 palavras de uma testemunha sempre ocultada – palavras que, supostamente, se destinavam a dissipar todas as dúvidas, perguntas e receios de milhões de Fiéis – mesmo se, manifestamente, a Rússia não se converteu, e a convergência das forças de violência e de rebelião contra Deus e contra a Sua Lei ameaçam acrescidamente a cada dia que passa.

* 4ª circunstância suspeita: Não foi disponibilizada qualquer gravação ou transcrição dessa entrevista.

       Porque é que não foi apresentada nenhuma transcrição da entrevista, nem uma gravação áudio ou vídeo, nem qualquer outra reprodução isenta, de modo a mostrar com toda a precisão, i) que perguntas foram feitas por Bertone, ii) que respostas (completas) deu a Irmã Lúcia, iii) a própria sequência de perguntas e respostas e iv) quaisquer comentários ou sugestões que tanto Bertone como os restantes presentes poderiam eventualmente ter feito à Irmã Lúcia durante as "mais de duas horas" em que estiveram juntos na mesma sala. Onde está aquela troca verbal que se pode ver em qualquer entrevista publicada?

       Mais ainda: porque precisou Bertone de mais de duas horas para conseguir quarenta e quatro palavras da Irmã Lúcia sobre os assuntos em debate? Se admitirmos que a Irmã Lúcia precisou de 1 minuto para produzir essas 44 palavras – então que mais disse ela, e Bertone, o Padre Kondor e a Madre Superiora, em todo o restante tempo do encontro, ou seja, cerca de 1 hora e 59 minutos?

       Ter-se-ia feito recordar à Irmã Lúcia o seu voto de "obediência"? Ter-se-lhe-ia insinuado que toda a Igreja estava suspensa das suas respostas, por forma a pôr termo a esta controvérsia "divisiva"? Ter-lhe-ia sido sugerido que a sua lealdade "ao Santo Padre" requeria que ela aceitasse a interpretação de Bertone/Ratzinger da Mensagem de Fátima, mesmo se a (supostamente sua) carta ao Papa, de 1982, a contradiz? Ter-lhe-ia sido dito como era importante para a Igreja o facto de ela garantir a toda a gente que a Rússia já tinha sido consagrada, apesar de tudo o que, em contrário, ela dissera ao longo de toda a sua vida? Ter-lhe-ia sido dada a impressão de que, se assim não fizesse, estaria a contradizer o próprio Papa?

       Ou talvez, tendo a Irmã Lúcia dado muitas respostas que não agradaram ao seu inquiridor, ter-lhe-ão feito – sempre e unicamente – as mesmas perguntas, repetindo-as e formulando-as de maneiras diferentes, até ela ter produzido as respostas "correctas"? Até que ponto terá a testemunha sido sujeita a semelhante pressão, mais ou menos subtil, durante as duas horas em que, fechada numa sala, esteve rodeada pelos seus superiores?

       Se nada houvesse a esconder, certamente Bertone teria feito com que uma entrevista tão crucial – com a única testemunha sobrevivente das aparições de Fátima, já com 94 anos – fosse gravada em áudio ou em vídeo ou, pelo menos, transcrita palavra a palavra por um estenógrafo, de modo a que as declarações da testemunha pudessem conservar-se no caso de ela falecer – o que, na sua idade, decerto sucederá num futuro mais ou menos próximo. Contudo, eu estaria tentado a afirmar que não existe gravação alguma, nem transcrição, nem um registo independente de toda a entrevista de Bertone. Porque, ao que parece, há um medo terrível de deixar que esta testemunha fale à vontade, pelas suas próprias palavras, em resposta a uma série de perguntas, simples e directas. Das quarenta e quatro palavras da Irmã Lúcia que aparecem no comunicado de Bertone, cada uma delas é cuidadosamente ponderada, como que deixada cair de um conta-gotas.

       É certo que o registo destas declarações era de um risco enorme. E se a Irmã Lúcia, com toda a coerência, desse as respostas "erradas"? E se as respostas que ela desse tivessem de ser ‘reconstituídas’ de entre perguntas dirigidas ou de subtis persuasões, quer do entrevistador quer dos outros assistentes? O que fazer com um registo que revelasse tais coisas? Como poderia ser afastado do público ou só parcialmente revelado? Como poderia ser escondido ou destruído uma vez criado?

       Eu ficaria feliz se se pudesse demonstrar que estou errado… Talvez haja uma fita ou uma transcrição total dessa sessão de duas horas. Mas, se há, seria muitíssimo reveladora a própria recusa do Vaticano em apresentá-la.

* 5ª circunstância suspeita: O comunicado italiano seria supostamente assinado por Bertone e pela Irmã Lúcia; mas a tradução em língua inglesa omite a "assinatura" desta.

       Em primeiro lugar, porque é que a Irmã Lúcia assinaria o comunicado em italiano de Bertone sobre aquilo que ela alegadamente lhe disse em Português? Porque é que a Irmã Lúcia não faz nem assina o seu próprio testemunho dado na sua língua materna? E se é mesmo verdade que a Irmã Lúcia falou com Bertone durante mais de duas horas, porque não preparar simplesmente uma transcrição fidedigna das suas palavras em Português – que ela assinaria –, em vez do tão conveniente comunicado de Bertone?

       Além disso, por que razão foi omitida a "assinatura" da Irmã Lúcia da tradução inglesa do comunicado? Pensando bem, que documento deveria ser por ela assinado em primeiríssimo lugar? – o comunicado em italiano, ou o original português do mesmo documento (que, por sinal, ainda ninguém apresentou)?

       Mas, em qualquer dos casos, que valor terá a "assinatura" da Irmã Lúcia aposta a um documento escrito numa língua que ela não fala e que, embora citando parcialmente o seu testemunho (na língua que ela fala), não apresenta as perguntas completas que lhe foram feitas nem as respostas completas que ela deu?

       A conclusão – a que incontornavelmente se chega – é a seguinte: tanto Bertone como o próprio aparelho de estado do Vaticano não têm qualquer intenção de, algum dia, vir a autorizar a Irmã Lúcia a pronunciar-se à vontade, de uma forma completa e com as suas próprias palavras acerca dos assuntos fundamentais que ficaram ainda por esclarecer, referentes à Mensagem de Fátima. É isto mesmo que vem ao de cima com a circunstância suspeita que se segue:

* 6ª circunstância suspeita: O livro, de 303 páginas, recém-publicado pela Irmã Lúcia sobre a Mensagem de Fátima omite por completo todo e qualquer assunto supostamente tratado na entrevista secreta de Bertone.

       Em Outubro de 2001, a Biblioteca do Vaticano publicou um livro da Irmã Lúcia intitulado Os apelos da Mensagem de Fátima. A Introdução, igualmente de sua autoria mas revista e aprovada pela Congregação para a Doutrina da Fé, insiste em que é intenção da Irmã Lúcia dar "uma resposta e um esclarecimento daquelas dúvidas e perguntas que me têm sido feitas." O Prefácio, do actual Bispo de Leiria-Fátima, observa do mesmo modo que a Irmã Lúcia pedira autorização à Santa Sé para escrever um livro sobre Fátima, por forma a "responder a múltiplas perguntas de uma forma global, uma vez que lhe era impossível responder a cada pessoa individualmente."

       Pois a despeito do seu reiterado propósito, aquelas 303 páginas não abordam nenhuma das "dúvidas e perguntas" que prevalecem acerca da Mensagem de Fátima. Os erros da Rússia, o Triunfo do Imaculado Coração de Maria, a Consagração da Rússia que resultará na sua conversão, o período de Paz prometido pela Santíssima Virgem como fruto dessa Consagração e o Terceiro Segredo nem sequer são mencionados no livro. Nem mesmo a Visão do Inferno é mencionada na discussão da Irmã Lúcia sobre a vida eterna e a busca do Perdão de Deus. Em suma: o que o livro apresenta é uma Mensagem de Fátima exaustivamente expurgada, totalmente despida de qualquer dos seus elementos proféticos e admoestadores. A versão da Mensagem de Fátima que encontramos neste livro só muito dificilmente precisaria de um Milagre do Sol ‘para que todos acreditassem’.

       Mas o que é verdadeiramente espantoso é que, quando a Irmã Lúcia é autorizada a escrever um livro (de 303 páginas) que trate das "dúvidas e perguntas" sobre a Mensagem de Fátima, ela nada diz sobre as dúvidas e perguntas que milhões de pessoas continuam a ter. Só quando é entrevistada – em sigilo e por um inquiridor pessoalmente comprometido que, por sinal, é uma relevante figura de autoridade da Igreja –, é que é permitido à "Irmã Lúcia" alongar-se em torno destas dúvidas e perguntas. Contudo, mesmo então as suas respostas são fragmentárias e não provêm dela directamente nem no seu próprio idioma. Em vez disso, elas são veiculadas através do Arcebispo Bertone que, das duas horas de conversação com a sua ‘testemunha em cativeiro’, nos oferece quarenta e quatro palavras relevantes.

Vejamos agora o somatório das circunstâncias suspeitas que rodeiam todo o contacto com a testemunha-chave do ‘Caso Fátima’:

  • Ninguém pode falar com a testemunha sem o consentimento de uma das partes do caso – a que controla todo o acesso a ela –, mesmo se e quando nos é dito que ela não tem mais nada a dizer.
  • Enquanto crescem as dúvidas em torno das versões oficiais do depoimento da testemunha, ela é sujeita – aos 94 anos – a uma entrevista secreta, orientada por uma imponente figura de autoridade que vem então dar a público fragmentos de respostas a perguntas feitas, num comunicado ao qual é aposta a assinatura da vidente, mesmo se e quando o comunicado não está escrito na sua língua materna.
  • Uma das versões do comunicado leva supostamente a assinatura da testemunha logo abaixo da do seu inquiridor – assinatura que é retirada de outras versões onde só a primeira aparece.
  • O comunicado não fornece nem as perguntas completas feitas à testemunha, nem as respostas desta no seu contexto integral.
  • Das 463 palavras que o comunicado atribui à testemunha, só 44 têm a ver com o assunto em controvérsia – num total de duas horas de conversação!
  • Não é fornecida transcrição alguma nem outro qualquer registo ou gravação independentes do depoimento da testemunha.
  • O depoimento, secretamente obtido e fragmentário, contradiz diversas afirmações anteriores da mesma testemunha.
  • A testemunha não se esforça por explicar a razão das suas anteriores (e agora alteradas) afirmações – nem ninguém mais o faz.
  • Durante a entrevista secreta com a testemunha, não é feita qualquer tentativa para obter dela a autenticação das "cartas" que lhe são atribuídas e cuja autenticidade é muito discutida, assim como não é feito qualquer esforço para autenticar aquela tal "carta" na qual o próprio inquiridor (unicamente) se baseou como prova da alegada modificação do depoimento da testemunha [sobre a Consagração da Rússia].
  • O exame sigiloso feito à testemunha inviabiliza quaisquer perguntas específicas sobre as enormes (e bem conhecidas) discrepâncias do caso, das quais a testemunha tinha particular conhecimento – incluindo as seis omissões por demais reveladoras supra expostas neste mesmo artigo.
  • E quando à testemunha é permitido publicar um livro inteiro que trate das "dúvidas e perguntas" que lhe foram dirigidas a respeito da Mensagem de Fátima, esse livro não contém nenhuma referência a qualquer das dúvidas e perguntas que, na realidade, continuam a dizer respeito a milhões de pessoas – cujas dúvidas e perguntas são, unicamente, abordadas numa entrevista secreta de que não existe uma transcrição ou outro registo de carácter independente.

       Tanto o Arcebispo Bertone como o Cardeal Ratzinger ocupam altos cargos na Igreja. No entanto, e não obstante o respeito devido a esses cargos, nada consegue vencer a suspeita de que essas circunstâncias não podem deixar de criar em espíritos razoáveis. Nenhum tribunal do mundo aceitaria o depoimento de uma testemunha sujeita a tão bizarras restrições. Ora, quanto à Igreja, é-nos lícito esperar, pelo menos, a mesma medida de transparência e de abertura que um juiz civil requeriria. -Deixem-nos ouvir a testemunha, pelo amor de Deus!

A recente campanha de ‘desinformação’ põe a Irmã Lúcia a contradizer tudo quanto tem afirmado nos últimos 70 anos. Ter-Se-ia Nossa Senhora de Fátima enganado, ao escolher para Sua mensageira uma pessoa não credível? Ou ter-Se-á Deus enganado, ao autenticar a Mensagem de Fátima com um milagre? O que pensa sobre tudo isto?

Estão a impor-nos uma fraude!

       Portanto eu – com toda a candura – poderei chegar a uma conclusão que seria óbvia para qualquer observador neutro deste misterioso "manuseamento" da Irmã Lúcia de Jesus e do Imaculado Coração: tudo leva a crer que está a ser perpetrada uma fraude.

       Mas porquê?

       E eu creio que a resposta é que o Cardeal Ratzinger não pensa que está a cometer uma fraude; creio, sim, que ele vê a supressão do testemunho total e livremente expresso da Irmã Lúcia como um serviço que está a prestar à Igreja. Com isto, o que eu quero dizer é que o Cardeal Ratzinger não acredita absolutamente nada nos elementos proféticos da Mensagem de Fátima: nem a) quanto à necessidade da Consagração e conversão da Rússia, e do Triunfo do Imaculado Coração de Maria no nosso tempo, nem b) quanto às desastrosas consequências que teria, para a Igreja e para todo o mundo, o facto de não prestar atenção a estes elementos de profecia. Por conseguinte, o Cardeal consideraria que suprimir tais elementos seria suprimir algumas perigosas falsidades que estão a "perturbar" os Fiéis – por muito que a Irmã Lúcia possa acreditar que tudo isto é verdade.

       Não se trata de mera especulação da minha parte. Ao confirmar Dhanis como um "eminente conhecedor" de Fátima, Ratzinger expõe claramente que ele – tal como Dhanis – mantém que os elementos proféticos da Mensagem referentes à Rússia e a tudo o mais – que Dhanis apoucou, chamando-lhe "Fátima II" – são pouco mais do que congeminações de uma pessoa que, apesar de simples e bem intencionada, está seriamente iludida.

       Como Dhanis, "o eminente conhecedor" de Fátima, afirma: "Considerados todos os elementos, não é fácil precisar com exactidão qual o grau de credibilidade que deve ser conferido às declarações da Irmã Lúcia. Sem pôr em causa a sua sinceridade ou a solidez dos juízos de valor que demonstra no seu dia-a-dia, deverá considerar-se prudente usar dos seus escritos apenas sob reserva. (…) Lembre-se ainda que qualquer pessoa possuidora de boas qualidades pode ser sincera e demonstrar sensatez nos seus juízos de valor quotidianos, mas ter uma propensão para invenções inconscientes dentro de uma determinada área ou, de qualquer modo, uma certa propensão para contar velhas memórias de há vinte anos embelezando-as com consideráveis modificações." Dhanis, que se recusou a examinar os arquivos oficiais de Fátima, lança a dúvida sobre todo e qualquer aspecto da Mensagem de Fátima que não esteja de acordo com as suas tendências: à oração ensinada pelo Anjo, ele chamou-lhe "inexacta"; à visão do Inferno, ele chamou-lhe uma "exagerada representação medieval"; à profecia de "uma noite iluminada por uma luz desconhecida" anunciando o advento da Segunda Guerra Mundial, ele descreveu-a como "elemento suspeito." E quanto à consagração da Rússia, Dhanis declarou chãmente que "A Rússia não poderia ser consagrada pelo Papa sem que tal acto se revestisse de um certo ar de provocação, quer em relação à Igreja separada, quer em relação à União das Repúblicas Soviéticas. Isto tornaria a consagração praticamente irrealizável…" Assim, Dhanis declarou que a Consagração da Rússia seria "moralmente impossível devido às reacções que, como se esperava, iria provocar."

       A desconstrução que Dhanis faz da Mensagem de Fátima é um exemplo típico de como os modernistas conseguem minar as verdades católicas, com base em premissas inventadas por eles. Então (premissa inventada) se a Consagração da Rússia é moralmente impossível, porque é que Nossa Senhora de Fátima iria pedir que se fizesse? Tendo assim apresentado os factos contra a Irmã Lúcia, Dhanis extrai a "inevitável" conclusão: "Mas poderia a Santíssima Virgem ter pedido uma consagração que, tomada rigorosamente à letra, seria praticamente irrealizável? (…) Com efeito, tal pergunta parece pedir uma resposta negativa. (…) Parece, pois, muitíssimo improvável que Nossa Senhora pedisse a consagração da Rússia (…)". Portanto, baseado inteiramente na premissa inventada por Dhanis, o testemunho da Irmã Lúcia é declarado uma fraude.

       São estes os pontos de vista que o Cardeal Ratzinger endossou ao declarar Dhanis um "eminente conhecedor" da Mensagem de Fátima. E continuando ainda na mesma linha de Dhanis, é o próprio Cardeal que, no Comentário, afirma que o Terceiro Segredo, no seu todo, poderia bem ser em grande medida uma mistificação: «A conclusão do "segredo" lembra imagens, que Lúcia pode ter visto em livros de piedade e cujo conteúdo deriva de antigas intuições de fé.» É claro que i) se isto é verdade acerca do Terceiro Segredo, ii) também pode ser ‘a verdade’ de toda a Mensagem de Fátima. Que outra conclusão teria o Cardeal a intenção de "fazer passar" como certa? Pois se ele reduz o culminar de toda a Mensagem de Fátima – o Triunfo do Imaculado Coração – ao fiat da Virgem Maria, de há 2.000 anos (e nada mais)! O Cardeal completa o revisionismo da Mensagem retirando-lhe as palavras "Por fim…" da profecia: «Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará.» Afinal, quais são aquelas palavras dispersas segundo as quais, logo de imediato (para citar Dhanis), «não é fácil precisar com exactidão qual o grau de credibilidade que deve ser conferido às declarações da Irmã Lúcia»?

       Semelhantemente, o Cardeal desconstrói a profecia da Virgem Maria de que "Para as salvar [isto é, as almas do Inferno], Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao Meu Imaculado Coração." Ora segundo a interpretação do Cardeal (que decerto muito agradaria a Dhanis), o profetizado estabelecimento em todo o mundo da devoção explicitamente católica ao Imaculado Coração de Maria fica reduzido a uma prescrição genérica de piedade e santidade pessoal: «O "coração imaculado" é, segundo o evangelho de Mateus (5, 8), um coração que a partir de Deus chegou a uma perfeita unidade interior e, consequentemente, «vê a Deus». Portanto, "devoção" ao Imaculado Coração de Maria é aproximar-se desta atitude do coração, na qual o fiat – «seja feita a vossa vontade» – se torna o centro conformador de toda a existênciaO que quer dizer que qualquer pessoa pode ter um "coração imaculado": basta conformar-se à vontade de Deus. Repare-se na confusão aqui estabelecida entre os puros de coração, aqueles que se afastaram do pecado, e o único Imaculado Coração i) que foi concebido sem Pecado Original e ii) que nunca cometeu pecado algum, por mais leve que ele fosse. Sugerir que o Imaculado Coração de Maria pode ser comparado ao coração de qualquer um dos fiéis é um grave ultraje feito à Mãe de Deus – e é com esse ultraje que o Cardeal termina a sua sistemática dilaceração, membro a membro, do conteúdo profético – eminentemente Católico – da Mensagem de Fátima.

       Torna-se-nos claro, portanto, que tanto o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé como Dhanis dão muito pouca credibilidade ao testemunho da Irmã Lúcia, segundo o qual a Virgem pedira a Consagração e a Conversão da Rússia em ordem a estabelecer no mundo o Triunfo do Imaculado Coração de Maria. É evidente que o Cardeal não acredita que foi Deus que, através do Milagre do Sol, autenticou este testemunho para além de qualquer dúvida. Pois a que outra conclusão pode chegar-se a partir da elogiosa confirmação, por parte do Cardeal, daquele mesmo teólogo que tentou desacreditar toda a profecia de Fátima?

       Aqui está, pois, um motivo provável para tudo isto: no seu espírito, o que o Cardeal está a fazer é a proteger a Igreja das perturbações causadas de há muito por uma "revelação privada" – à qual ele, do mesmo modo que Dhanis, não atribui grande peso. Assim, o revisionismo ou a supressão do testemunho da Irmã Lúcia sobre estes assuntos, do ponto de vista do Cardeal, nada teria de errado; pelo contrário, o Cardeal poderia bem considerar que era esse o seu dever.

       Entretanto, torna-se-nos impossível concluir outra coisa que não seja que a Mensagem de Fátima se encontra agora sob custódia daqueles que, pura e simplesmente, não acreditam nela e desejam considerá-la terminada – tal como implantaram a sua marca na nova política do Vaticano do ecumenismo, de uma fraternidade mundial de religiões e de uma Paz obtida através das Nações Unidas. Mas como o mundo se precipita numa queda em espiral para a violência e a devassidão moral, como a não-conversão da Rússia, mais e mais evidente, sobe cada vez mais pedindo a presença de um Deus fulminador – resta-nos a nós, simples fiéis, continuar com as nossas simples perguntas; e ainda ter esperança e rezar para que chegue o dia em que aqueles que tomam as rédeas do Poder no Vaticano permitam ao Papa que faça, precisamente, aquilo que a Mãe de Deus lhe pediu há setenta e três anos atrás.

      Os diários da Irmã Lúcia registam que em 1931, em Rianjo (Espanha), ao falar do reiterado adiamento da Consagração da Rússia, Nosso Senhor lhe disse: "Eles hão-de arrepender-se, e fá-lo-ão, mas já será tarde." Em que medida será tarde, e quanto mais o mundo e a Igreja terão de sofrer – isso depende dos que mantêm a Mensagem de Fátima sob custódia e que controlam todo o acesso à última testemunha, ainda sobrevive, dos seus recados vindos do Céu.

      Nota do Editor aos estudiosos de Fátima:. Ocasionalmente, ao referir-se ou ao citar o comunicado de Bertone, este artigo utiliza por vezes a tradução inglesa do Vatican Information Service, do original italiano de 20 de Dezembro [de 2001]; outras vezes, a tradução constante da edição em Língua Inglesa de L’Osservatore Romano de 9 de Janeiro [de 2002]; e ainda, muito raramente, se utiliza a nossa própria tradução da versão italiana.




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